Não são todos os dias que temos a oportunidade de conhecer e penetrar num reino tão peculiar como o Reino das Casuarinas. E é esse que o escritor José Luís Mendonça nos apresenta no seu livro exactamente com o título “O Reino das Casuarinas” onde, a todo momento, o leitor é convidado pelo narrador a sentir-se participante activo da história. Levantam-se, nas entrelinhas de algumas páginas, questões como “quais serão as linhas que separam a insanidade da sensatez? E até que ponto as nossas acções justificadas e baseadas em discursos do «bem comum» não são, afinal, actos insanos, e a causa do sofrimento do outro?” As respostas, o leitor encontrará por si mesmo.

No livro, somos transportados para um contexto histórico e político da Luanda e um pouco da Angola de 1961 a 1987. Uma fase, entre a pré e pós independência, com particularidades que atravessaram o tempo e se fazem reconhecer nas esquinas dos bairros, das ruas e das cidades dos dias actuais do nosso país. Tendo como guia Nkuku, um dos personagens centrais da narrativa, somos levados a conhecer de perto o Reino das Casuarinas que foi idealizado por outro personagem fascinante da história e fundado por grupo de “doentes mentais” numa psiquiatria onde cada um, à maneira da sua loucura, faz-nos olhar para o nosso interior e encarar aspectos ocultos e muitas vezes sombrios que vivem dentro de nós.

Até perto da sua queda, o Reino era baseado sobre os princípios de igualdade, justiça, humildade, bem-estar comum e, em grande medida, sob o profundo relacionamento entre a Rainha e seus súbditos. E estes princípios, tão bem conseguidos por “doentes mentais”, espelham as debilidades dos estados actuais e expõem, página à página, a corrupção individual, mostrando como essa, ao transportar-se para o colectivo, corrói toda uma comunidade, transformando-a num mar de injustiças e desigualdades. A proximidade entre a Rainha e aqueles que esta governava era um dos principais motores do Reino e é, em contra partida, o que muitas vezes falta no mundo real das “pessoas normais”. Faltam, nas sociedades das “pessoas normais”, pontes entre aqueles que estão no topo da montanha a tomar decisões e aqueles que estão mais abaixo da montanha que são alvos de tais decisões.

Embarcar na viagem ao Reino das Casuarinas constitui uma experiência enriquecedora pelas diversas emoções que se experimentam, pela aprendizagem significativa sobre aspectos culturais e históricos do nosso país, que não aparecem em todos os livros didácticos com os quais nos deparamos por aí. E é também uma leitura que vale a pena pelas diferentes possibilidades que se nos apresentam de repensarmos as questões de justiça social, igualdade, paz e bem-estar colectivo.