Agora, nesses tempos de Estado de Emergência e Situação de Calamidade, o saldo de dados virou deus. Quase não se faz muito sem o mesmo. Todos com medo do inimigo invisível precisam de saldo de dados para consultar o estado das contas bancárias, pagar impostos, trabalhar e até comprar comidas! Muitos dos mercados têm estado às moscas.

Como professor de literatura, graças ao Grande Arquitecto do Universo, não perdi o meu ganha-pão. Continuo a receber pedidos de aulas on-linemente. O meu amigo italiano Jean Carlos, desde o começo do Estado de Emergência e Situação de Calamidade, que vem dizendo que, por um lado, o vírus trouxe crises económicas e sociais, mas, por outro lado, o senhor cuja aparência é a de uma coroa, veio demonstrar o peso da cultura e das artes no seio da espécie humana.

Num desses cursos de literatura realizado por uma das academias com as quais tenho trabalhado, uma estudante punha em causa a genialidade dos escribas. A estudante perguntava qual é a diferença entre a realidade e um romance, por exemplo.

Para ela, um romance era um retrato de uma sociedade ou de um indivíduo durante um tempo.

Tomando a palavra com o fito de explanar a questão, alertámo-la que a palavra é venerada no imaginário africano. Daí, provavelmente, a Bíblia nos alertar que toda a palavra serve para educar.

Acto contínuo. Apresentámos à estudante as noções de mimese, verosimilhança e o cuidado que se deve ter com a velha Teoria da Estética da Recepção.

A literatura, dissemo-la, é a imitação da realidade ou das possíveis realidades. Os escritores de verdade buscam os fantasmas das possíveis realidades nos povoados das suas mentes.

A título de exemplo, pedimos para que um estudante lesse o poema Criar de Agostinho Neto, dando realce ao verso “criar no espírito criar no músculo criar no nervo/ criar com os olhos secos”.

Recomendámos à estudante a ter cuidado com a verosimilhança ao utilizar a velha Estética da Recepção, de Rans Robert Jauss, porquanto a obra literária encerra uma dimensão psicológica que se espelha na catarse que o leitor vai tendo ao ler uma obra. Pois que poderia, no caso de ler um romance de personalidade ou intimista, confundir as suas experiências com partes ou todo um romance.

Alguns dias depois, o curso ia a bom ritmo, ensinei sobre narrativa de espera, a teoria do Kaliban e do Próspero, spectrum literário, historicidade e as alegorias de Walter Benjamin. A estudante mostrava-se interessada em aprender mais elementos da literatura brasileira e angolana para descodificar alguns textos de reconhecidos escritores brasileiros e angolanos.

No final do curso, que durou apenas quatro semanas, a estudante, para trabalho de fim do curso, apresentou-nos uma portentosa comunicação na qual descortinava o romance intimista Tanda, de Adriano Mixinge. Conseguiu arrecadar 70 valores pelo esforço, dedicação e interacção durante as aulas.