Qualquer abordagem que se fizer em torno duma obra poética será sempre exógena, na medida em que ela emana múltiplas informações. «As obras de arte encerram uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados e que, ainda que apresente uma forma acabada e “fechada” no seu organismo equilibradamente estruturado, se manifesta “aberta”, se se considera que pode ser interpretada de diferentes maneiras». (ECO,1962). A obra depois de publicada deixa de ser exclusivamente do seu autor, passando a ser, efectivamente, de toda uma comunidade literária, e o leitor é obrigado ou desafiado de forma implícita a descodificá-la e, raramente, consegue chegar à ideia original do autor. Por isso, a afirmação de que qualquer perscrutação em torno duma obra será sempre superficial.

Por imperativo dessa afirmação, algo doutrinal, e reconhecendo, efectivamente, os limites das nossas capacidades cognitivas, fica patente que se torna impossível apresentar a obra de um ponto de vista global. Contudo, não nos vamos apegar a esta teoria para escondermos as nossas insuficiências epistemológicas.

A obra que vos vamos apresentar é da autoria do poeta Depacaça Barriga, pseudónimo literário de Horácio Arnaldo Gomes Adolfo, reúne 47 poemas com multiplicidade de temas e intitula-se “O Regresso do Soldado Excluído”. Parece-nos que, possivelmente, a escolha desse título se deveu, também, em grande medida, a razões extra-literária, especificamente ao facto de ele exercer com solicitude e amor a sua profissão (quadro do ministério da defesa como consta da sua biografia). Porém, fazendo uma análise de um ponto de vista léxico-semântico, podemos concluir que, embora ínfima, há implicitamente uma relação inter-semiótica entre o título e o resto da obra condensada em muitos poemas. Se nos ativermos à palavra Soldado, o signo mais importante no que se refere ao título, apresentando-se como o elo entre o signo regresso, que encerra na sua matriz semântica termos como «retorno, volta, retrocesso» e o signo excluído cuja matriz semântica nos remete a termos como «rejeitado, afastado, banido», ademais Soldado apresenta-se como o único referente possível desses termos, pois que regresso e excluído se constituem como signos incompletos quando desassociados de qualquer contexto. O termo Soldado segundo Lopes (2013, p.  39) tem «origem em soldo [Do latim solidus, sólido], uma antiga moeda romana de ouro criada por Constantino em 309 d.C. Como os militares romanos eram pagos com essa moeda, receberam o nome de “soldados”». Dizia, aquele que é tido pela maioria como o pai da Linguística Moderna, Ferdinand de Seussaure, «os signos são arbitrários» e portanto, o termo soldado, alargando o seu campo semântico, fora das convenções linguísticas, pode ser entendido como aquele que se sacrifica por um determinado objecto material ou imaterial. A busca tenaz pelo amor, ao remar contra as ondas nascidas do conflito da alma contra as injustiças, a sua crença em Deus em tempos difíceis, não faz dele soldado? Ao evocarmos Depacaça Barriga com a alma, brotam-se-me vocábulos como “desconfiança”, “abandono”, “dor”, “desamor”, “angústia”, “deslealdade”, “injustiça” vivenciados pelos diversos sujeitos poéticos por si criados.

Todavia, se tivéssemos de escolher um tema para esta obra, tê-lo-íamos designado “Oscilação”. Oscilação em termos de poética, em termos de conteúdo e em termos gramaticais.

Oscilação poética

Fazendo um enquadramento, embora subjectivo, traçando uma escala de valores estético, lembrando o mestre Macedo na sua obra Poéticas na Literatura angolana, a propósito do mais e do menos poético, encontrar-se-iam, em “O Regresso do Soldado Excluído”, poemas que oscilam entre o menos poético (a maioria) ao mais poético.

O poeta oscila na sua criação, apresentando-nos, por um lado, textos de caris naturalista, como podemos observar nos poemas “Amor de mãe” (pág.17), “Sobrevivente” (pág. 21), caracterizados por uma linguagem directa, próxima da do sistema linguístico natural, com um conteúdo algo prosaico, mas insuficiente para anular o lirismo presente. Por outro lado, textos caracterizados por uma linguagem reticente, construída com imagens, metáforas, metonímias e etc., num simbolismo moderado, em que o conteúdo prosaico se diminui significativamente a favor do culto da linguagem, como podemos observar nos poemas “Um whisky por favor” (pág. 15), “Lágrimas” (pág.16) e ainda nos poemas (ecos do sentir 35, não direi 46, negro 31).

Capa do livro, O regresso do soldado excluído, de Depacaça Barriga

Oscilação Conteudística

A oscilação, aqui, consubstancia-se na multiplicidade de temas, o que é normal e evidente, mas gostávamos de descrever as incertezas presentes em poemas como:

Quando a saudade morrer” (pág. 8), no qual o sujeito poético dirige-se a diferentes pessoas gramaticais do mesmo plano, num piscar de olhos. Ora num tu, ora numa terceira pessoa.

Oscilação Gramatical

Em “Introdução aos Estudos Linguísticos”, aprendemos que não existem erros, e, sim, fenómenos linguísticos definidos como desvios à norma vigente, resultante das convenções político-linguísticas. Apesar dessas tentativas de se normalizar a língua, ela não se realiza do mesmo modo. Alguns poemas de Barriga revestem-se de traços da oralidade angolana, nomeadamente a próclise pronominal (me apaixonei, 28), oscilando com a ênclise tida como a certa pela norma Lisboa-Coimbra em casos de frases declarativas desde que não haja uma partícula que atraia o pronome para a próclise, e a ênclise arbitrária do linguajar popular angolano, presente em muitos poemas. Realçar a valorização do extracto fónico através da interposição à rima e à repetição intencional de certos fonemas, numa altura em que Angola, pelas obras poéticas publicadas, predomina o verssilibrismo (pág. 11, 26). Doutro modo, podemos também questionar, aqui, se tal oscilação não revela algum desconhecimento gramatical do poeta.

Outros focos

Em “O Regresso Do Soldado Excluído”, encontrámos poemas de conteúdos vários. O tema mulher, fortemente predomina, a mulher que amamenta, ama com sofrimento, mas ampara (Amor de mãe, pág. 17), a mulher que machuca, capaz de ferir o coração com um gesto punhal ou palavras flechas (O desejo surreal, pág. 23) e outras mulheres que se entrelaçam, formando uma circunferência de sentimentos distintos, como angústia, amor, desamor, desesperança, e, entre estas, surge aquela que marca como que se de cicatriz indelével se tratasse e merece culto, fê-lo o nosso poeta, estabelecendo simetrias entre a sua paisagem de músculos, mulher musa[1], e as paisagens naturais de Angola (Era ela, pág. 12).

Por vezes, Depacaça, num atrevimento tremendo, derruba os muros da cobardia e encara a arte como um instrumento de denúncia abordando questões polémicas (Uma guerra de sangue sem propósito, pág. 19). Uma única frase: nas fratricidas batalhas todos saem a perder.

A sua paixão por Cristo é evidenciada em poemas como “Vem comigo irmão” (pág. 39), uma clara assumpção da sua religião e exortação aos irmãos perdidos como nós, “Vida feliz no reino” (pág. 40) em que está implícita a crença numa vida após morte.

Temos comentários infinitos relativamente a muitos trechos desse livro, todavia preferimos que os leitores descubram os diferentes enigmas pintados pelo poeta. E finalizamos deixando, eventualmente, algumas recomendações ao autor que ainda tem muito por evoluir: muita leitura.

 

Bibliografia de apoio 

ECO, Humberto. (1968). Obra Aberta. São Paulo. Editora Perspectiva.
LOPES, Reinaldo José. (abril 2013). Roma – A saga do império que nunca acabou. Wikipédia, a enciclopédia livre.
http://www.cesadufs.com.br/ORBI/public/uploadCatalago/14591116022012Estilistica_aula_6.pdf