‘‘Pegadas Íntimas’’ é a mais recente obra poética do poeta e prosador angolano Nguimba Ngola, que reúne 50 poemas, que retratam o tema do amor, nas suas múltiplas dimensões e com todas as suas incidências e implicações: factos visíveis a partir da capa, sobre a qual podemos visualizar as marcas deixadas pelos pés, constituídas por palavras, que, juntas, nos remetem a verdadeiros oxímoros (paz vs guerra; amor vs ódio;) e pelo seu tom avermelhado.

Sabe-se que o vermelho é uma cor quente, perigosa como a paixão; associada ao poder, à guerra, é a cor do elemento fogo, do sangue e do coração humano; simboliza a chama que mantém vivo o desejo, a excitação sexual e representa os sentimentos de amor e paixão. É também a cor do pecado, no contexto religioso, representando aquilo que é carnal. Em termos ideológicos, é a cor do comunismo e dos partidos da esquerda. O tecido preto, como que manchas sobre o vermelho, saberá explicá-lo melhor o designer gráfico. Por suposição, e temos essa liberdade, talvez quisesse diversificar o ambiente paisagístico da capa, porquanto, o vermelho em excesso pode não fazer bem aos nervos. O amor é, indubitavelmente, um campo aberto: cabe-se-lhe todos os actos humanos, decorrentes, por vezes, de sentimentos contrários a si: para o músico angolano Heavy C, o amor é uma «merda»; para Camões, que dispensa apresentação, o amor é tão contrário a si.

O autor de “Mátria” pinta, concomitantemente, as diferentes paisagens do amor num quadro social, preenchido por um materialismo descomedido, em que o pouco amor que resta surge como divina tampa a impedir um caos maior: o amor ingénuo, puro como uma natureza intacta, assente na doutrina judaico-cristã; o amor carnal, vivido intensamente pela pele que descansa na sombra do prazer e por vezes desemboca em infidelidade; o amor ao próximo que se vai desvanecendo no tempo, ridicularizado nas quadras festivas com almoços e jantares de solidariedade à luz dos media; o amor à criança, hoje dura, outrora o ser mais frágil, que aprendeu a dureza com as chapadas da vida.

Pegadas Íntimas, livro de Ras Nguimba Ngola

O título ‘’Pegadas Íntimas’’ é constituído por um nome feminino no plural, pegadas, e um adjectivo, íntimas. Pegadas, do latim pedicata, é um termo polissémico, significando vestígio que o pé deixa no solo (como nos sugere a capa), sinal, ou ainda ( já que o amor é o tema central) todos os gesto durante um coito aprazível e satisfatório para a pessoa intimada.  Mas o adjectivo íntima, forma feminina de íntimo, derivado do latim intimu, que significa interior, o que é de dentro, muito ligado, âmago.

Como em quase todas as obras poéticas, em ‘‘Pegadas Íntimas’’ há algumas virtudes que devem ser ressaltadas: a começar pelo índice que, ao que nos consta, apresenta uma numeração inédita (implicitamente) bilingue, ou trilingue (árabe, romana, e kimbundo). Bilingue remete-nos a uma leitura aportuguesada dos símbolos árabes e latinos; em relação ao Trilingue, se recorrermos aos significantes autóctones das línguas de partida, uma vez que por extensão, o autor apresenta-nos a numeração na língua nacional de origem africana Kimbundo. É importante dizer que o modo como foi grafado o índice remete-nos a uma leitura subjectiva.

O texto literário é uma entidade «pluristratificada», na medida em que reúne diversos níveis de expressão. O estrato óptico é, certamente, o elemento primário da percepção íntima de uma obra tipografada. Do ponto de vista técnico-formal, Nguimba Ngola apresenta-nos textos sob o signo de prosopoema, mantendo, plasticamente, a feição horizontal da prosa e, simultaneamente, até certo ponto, a sintaxe estrutural do verso, interpondo recurso a processos técnicos-compositivos como o encavalgamento. Uma experiência com diferentes leitores revelou-nos que a opção técnico-formal apresentada e os encavalgamentos podem levar os menos experientes a uma leitura que diminui a beleza do extracto fónico, na medida em que estes liam como se de prosa se tratasse. Convidamos ao estimado leitor a imaginar o verso, a descobrir o ritmo. (ler pág. 24)

A obra que anda, ou voa, ou voando, de mão em mão, encerra a palavra amor em suas íntimas entranhas, como que um remédio a curar as doenças da alma. A assumpção desta suposição temática lê-se num poema com o título ‘‘Concentro o Verso no Amor’’ (pág. 12).

A Língua Portuguesa figura para os angolanos, apenas, como um meio de expressão e não como meio de pensamento. E, no âmbito da angolanidade defendida por muitos teóricos românticos, o autor da obra em decomposição, interpõe recursos, ora a processos de diglossia, em muitos poemas, ora a expressões típicas da terra: nganza, fitucados (pág. 18), dá bum (pág. 21), muzumbo (pág. 13).

No plano dialogista, a obra conversa intimamente com diferentes meios de expressão. Com a sociedade, através de passagens que encerram vozes de quase toda uma colectividade, com estatuto etário juvenil: “se fosse eu metia-te toneladas de cornos…” (pág. 22). E, fundamentalmente, com a Bíblia Sagrada, facto denunciado pela recorrência a determinadas passagens bíblicas: Génese, capítulo II, versículo 18 “não é bom que o homem viva só…” (pág. ?). E há mais: “é melhor ficar só do que com a pior coisa do que a morte…” (pág. 22); “o que Deus uniu não o separe o homem” (pág. ?).

Assumpção evidencia-se em alguns poemas, nos quais, o poeta cita as fontes Cantares de Salomão 8: 5 – 7 (pág. 59).

A Matriz Judaico-cristã acompanha-o em quase toda a obra. É recorrente em muitos poemas a presença de personagens como Eva, Dalila, etc.

É quase impossível, no plano da construção linguística, não notar a presença do autor de “Este país chamado corpo de mulher’’, ‘‘Olfactos de Sentidos’’, ‘‘Reino das Casuarinas’’ e de muitas outras obras. Uma linguagem reticente e alegórica, que tende a ser ora sublime, ora moderada em determinados versos: (pág. 58); (Pág. 24).

Ainda no âmbito da intertextualidade, permitam-nos destacar o texto da página 17 que dialoga[5] com a música “Você não vale nada” da banda brasileira de Forrô electrónico, Calcinha Preta. Uma música reinterpretada pela Banda Calipso e que muito tocou por essas bandas:

Você não vale nada
Mas eu gosto de você!
Você não vale nada
Mas eu gosto de você!
Eu quero ver você sofrer
Só pra deixar de ser ruim
Eu vou fazer você chorar
Se humilhar
Ficar correndo
Atrás de mim

A passagem axiomática “uma imagem vale mais que mil palavras” encontra particular realce nos poemas das páginas 19 e 20. No poema da página 19, o meu sobrinho disse-me que a imagem sugere ora a cabeça de um cão, ora a cabeça de um gato. Nós, devido a nossa consciência surrealista, visualizamos uma criatura primitiva fora dos manuais de paleontologia. Em vista disso, o nosso comentário, sobre a poesia concreta de Nguimba Ngola, limitar-se-á no poema “caprichos do amor”, (pág. 20): um poema através do qual podemos visualizar um sujeito poético que releva um amor altruísta, sem medo de humilhação. Corre apressadamente, como nos sugere a disposição gráfica da palavra correr, sem se importar, de facto, com o resultado da sua busca.

Há ainda, na página 33, um acróstico excepcional, na medida em que as letras que encerram a dimensão ontológica do acróstico introduzem as estrofes e não os versos.

Há poemas que nascem do meio, alguns nascem do nada e outros poemas nascem de outros poemas. Há, todavia, poemas que nascem de momentos ímpares, que se não podem confundir com o meio, pelo grau de abstracção, ou seja, poemas que nascem de um sorriso miragem, ou de múltiplos cânticos: da voz de uma criança, da voz do prazer, ou da voz da imaginação. Em alguns textos, o autor revela as suas diferentes musas e apresenta-nos algumas razões:

Para a Mira Clock (pág. 26) que desfrutava a paisagem de Kangandala. Enquanto a fotografa, o poeta entra em transe e o sujeito poético contempla a imagem de uma bela mulher em cujo corpo advinha-se-lhe os dedos mágicos de um deus.

E seguem-se outras musas: à Detinha (pág. 31); à Beatriz (pág. 34); Inspirado num retrato da Marta Mesquita ou nela mesma (pág. 46); às crianças angolanas (pág. 48); à Jael de Fátima (pág. 54); ao amor inalterável do esposo para com a esposa (pág. 59).

O erotismo é forçosamente daqueles espaços de contemplação que nos obriga o visualizar o sublime. Torna-se mais sublime quando aliamos uma linguagem vernácula e alegórica que se não confunde com obscenidade (pág. 51).

Seria uma injustiça com Nguimba Ngola, se não reconhecêssemos a qualidade de salto entre “Mátria” e “Pegadas íntimas”. É positivamente salutar ler escritores que não se conformam com a sua poética e, em cada publicação, surpreendem-nos com um novo fazer criação. Há muito que se diga relativamente a essa obra, não críamos nós que possível fosse abordar a obra na íntegra, por essa razão deixamos os leitores descortinarem outros enigmas.

E terminamos dizendo que os homens constroem países, os livros constroem os homens que constroem sociedades que constroem livros que constroem grandes homens. Bem-haja à literatura angolana.