A nova edição da Palavra&Arte chega para cobrir o vazio deixado por um ano de estiagem desde que saiu a última edição. O lago do tempo que separa esta edição da última foi preenchido por diversas promessas não cumpridas, bem como de perda de interesse de pessoas que se haviam comprometido com a revista. Desilusões, dores de cabeça e socos no estômago foram desmedidos, mas não nos fizeram perder o ânimo que tem catalisado, desde o começo, a nossa perseverança e que tem nos levado a agraciar leitores, novos e velhos, cultores e amantes da arte com aquilo que amamos fazer, falar de arte, impulsionar o poderio cultural que existe em Angola e expressar um desmedido apoio à contínua busca pela identidade de um povo que, entre diversos e distintos trambolhões sociais, se desconhece cada vez mais.

Tal como a Palavra&Arte, o tema que há meses vem sendo cozinhado para esta edição já foi trucidado, menosprezado, humilhado, invejado, imitado, adaptado, enfim, tantos adjectivos que poderiam justificar  a sua extinção, mas aí está, a continuar a dar a volta por cima, a vencer barreiras e a mostrar que, onde quer que vá, representa uma identidade, desde as periferias aos centros urbanos, do mundo real ao virtual e vice-versa, ou seja, sempre a se reinventar, tal como há quase três décadas tem sido com os seus fazedores. Isso é Kuduro!

Mais que um estilo de música, de dança, Kuduro é um estilo de vida, algo que representa a identidade de quem o faz e, em diversas circunstâncias, de quem o ouve, dança e aprecia. Ainda não recebe dos líderes culturais o merecido reconhecimento, porque “somos tão cegos que nem vemos que ‘os de fora’ estão a dar mais importância aos ritmos africanos, mais especificamente, ao angolano, do que nós próprios” (Aneth Silva). Kuduro tem sido uma vítima da pouca importância que o angolano dá naquilo que é de sua própria origem, embora tenha sido criado da fusão de outros estilos, como vários outros estilos predominantes no mundo, mas que seus países bateram no peito e assumiram: é nosso! É um pouco disso, além de muitas outras coisas, que falta no Kuduro, como a coragem e admitir que faz parte do nosso ser e, que de um modo ou doutro, trará sempre resquícios da nossa identidade, e, “Apesar das críticas e definições menos boas, o estilo jamais poderá ser descartado da nossa vivência, pois é a maior bandeira cultural do nosso país e continuará a ser, pelo menos por mais alguns anos” (Masundidi Nsangu Landa).

Como se sabe, “cada etnia tem a sua própria identidade, mundividência e, consequentemente, uma expressão cultural única, apesar de haver muita fonte de convergência e ponto de diálogo entre elas” (Isis Hembe de Oliveira). Nesta edição, e como em todas as anteriores, damos foco a identidade. Fizemo-lo através de uma análise social onde o questionamento principal é o estado do ensino da literatura em Angola. Na referida análise, referimos como a educação, de modo geral, no nosso país tem trilhado, por longos anos, caminhos espinhosos que não se sabe ao certo aonde nos levará, e, com a literatura, de modo particular, tem sido pior. O olhar sobre a identidade é visto ao falarmos de algo presente em diversas formas de arte para manter vivo o espírito cultural africano, Afrofuturismo. A esta altura, leitores e seguidores da Palavra&Arte já devem ter percebido que em nossos temas cruzam sempre, de um modo ou de outro, assuntos que abordam a identidade. Falar de identidade, das características que um grupo, uma entidade ou uma pessoa possui e realçar a sua importância, é uma das premissas que nos impulsiona a continuar a fazer a revista. Falar da continuidade dos vários aspectos identitários que fazem um povo dá-nos a plena certeza de que o trilho que decidimos fazer vale a pena ou, doutro modo, não teríamos como convidar o mundo a conhecer Angola, esta terra que “é fresca, é viva, tem o som dos pássaros pela manhã, dá para sentir toda galáxia no fim do dia, bem debaixo dos nossos narizes a partir de cada recanto (Alicia Santos).

Uma vez mais, pela Palavra e pela Arte, damos o rosto e mostramos que, por mais que nos imponham a desistir, com cada barreira, com cada comentário maldoso, destrutivo, com portas e janelas a serem fechadas, após sete edições, já deve ser evidente que não estamos cá para desistir tão cedo, para ceder a ímpetos negativos. A nossa palavra é a nossa arte e, como o Kuduro, “é uma espécie de catarse individual ou colectiva, [onde] através das letras podemos vislumbrar toda uma geração que sonha, que sobrevive aos dramas existenciais” (Cláudio Kimahenda).

Sem soberba, podemos afirmar que, no final desta década, a Palavra&Arte estará marcada como o maior recanto, completamente independente, de linguagem exclusivamente artística e cultural, feito apenas por jovens. E mesmo que não for, contentar-nos-á saber que, apesar de nossos recursos bastante limitados, sem qualquer apoio particular ou institucional, contribuímos para a busca de alguma felicidade para o nosso povo. Porque, parafraseando um dos Pais do Kuduro, “Felicidade todos nós queremos” (Sebem), seja ela social, cultural ou artística.

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