Qualquer sociedade é um projecto político: facto indubitável. Os projectos políticos visam a satisfação dos interesses das maiorias. Digo maioria, porque não sou de construir utopias para envolver a totalidade das pessoas que compõem as nações. Há sempre quem se oponha aos factos sociais, ainda que, para a maioria, as coisas estejam a correr efectiviamente bem. É próprio da natureza humana. Não existe uma rede sensorial homogénea. Os conceitos de bem e errado serão sempre relativos. Os conceitos tidos como gerais que imperam decorrem de uma moral fundada em grémios com pretensão única de gerir atitudes e comportamentos das maiorias. Por isso, prevêem-se as medidas

Quanto mais o tempo passa, mas nos afastamos da genialidade. Paradoxalmente, é nesta era da democratização do conhecimento e da informação digital que as sociedades vivem a crise mais profunda do desconhecimento do conhecimento. A informação existe assim como as escolas, as universidades e outros espaços de transmissão do saber. Em todas as sociedades, há grupos – alguns com milénios e séculos de existência – de malfeitores iluminados de escuridão que arquitetam, (in) conscientemente, os projectos de segregação racial, étnica, social etc., com o objectivo único de se perpetuarem através de uma linhagem familiar automaticamente inserida nas respectivas elites que se vão constituindo, condenando o futuro dos seus países. É daí onde surgem os anómalos. Essa linhagem viciada é substituída sequencialmente por força de condicionalismos impostos por circunstâncias históricas que, por obrigação ou naturalmente, impõem mudanças. «Filho de lagartixa, certo dia pode tornar-se jacaré». O metabolismo das sociedades é tão natural quanto o metabolismo das espécies que as constituem.

Sei que não existe um único culpado para as coisas. Mas no meu país, em Angola, depois de alguns anos de independência, depois dos acordos de paz, depois dos desvios do erário a que assistimos, têm de começar a apresentar-nos culpados. Descontámos os equívocos normais que se cometem no princípio de todas as jornadas. Precisamos viver urgentemente. Precisamos ver medidas concretas. Há um culpado que parece não sentir o sofrimento das maiorias. Um culpado que promete e não cumpre há décadas, e outro culpado que se cala, esperando pela sua vez para ser o culpado do sofrimento dos próximos calados.

É inadmissível e absolutamente absurdo um projecto de educação fracassado, criado por um governo  e pessoas ministeriais saídas dos confortáveis gabinetes com declarações fantasmagóricas, acusando professores aos quais não proporcionou a melhor formação e nem deu condições de trabalhos que se adequem às exigências de sociedades, como a nossa. Numa terra de muitos «anómalos», declarações como estas levariam à demissão massiva dos entes que intervieram na constituição de tal projecto. Dir-me-ão que pertencem ao anterior governo! O novo governo é a clássica escola, a tradicional, a escola que ensinou o cantalotismo e a intolerância aos políticos, aos escritores, aos intelectuais de gravata, etc.

Das contradições dos sistemas, sempre surgem os filósofos. Estes aproveitam-se de alguns milagres chamados professores com vocação para o bem e para o ensino, mas é virtualmente com o autodidatismo que se vão criando autocriticamente à margem dos desígnios de sistemas que não têm a educação como o sustentáculo do futuro. Tal acontece quando a razão e a política caminham em sentido oposto, e é por este caminho por que passam grande parte das sociedades mundiais. Se em países mais avançados, do ponto de vista do ensino, criminosos assaltam o poder durante décadas, fazendo com que hoje haja menos confiança dos populares para com o poder, imaginemos as sociedades que nasceram das guerras independentistas e civis há quarenta anos.

Os anómalos sempre existirão. Eles criam-se in abstractu mesmo quando a dita ditadura dura. O problema é que, no final, toda cobra, um dia, morde a cauda.