Ritos de passagem espelha o universo feminino, algumas particularidades sócio-históricas e culturais de Angola, especialmente de algumas regiões do sul, o que torna a obra interessante na modernidade, principalmente para a camada jovem, estudantes, tendo-se em fio de conta o advento, à escala mundial, dos grandes eixos de actividades humanas; a perda de valores histórico-culturais do país. Outrossim, Ritos de Passagem possui um valor testemunhal, por a autora nascer, crescer e conhecer a realidade expressa pelos diferentes sujeitos poéticos que dão sentido corpóreo à obra. Nesta conformidade, a leitura do livro em alusão é recomendável. Confirmem!

ANA PAULA RIBEIRO TAVARES nasce em 1952, dia 30, mês de Outubro. Historiadora, antropóloga, é também mestre em Literatura Africana de Expressão Portuguesa. Das suas obras, figuram:
– Ritos de Passagem (1985);
– O Sangue da Buganvília (1998);
– O Lago da Lua (1999);
– Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos (2001);
– Ex-Votos 2003)… Mata (2006)

Ritos que marcam as peugadas de Ana Paula Ribeiro Tavares

Aqui, com o título, entenda-se ritos, no sentido de um sem-número de cunhos tatuados no ser da poetisa e, com os quais, ela dá à luz os seus poéticos rebentos.
Antes de rasgarmos um estirão em Ritos de Passagem, importa ascender à tónica que Paula Tavares é uma escritora de pouca fala. Ela prefere o silêncio as palavras forjadas oralmente, facto que a torna numa escritora imponente, imanente, ou simplesmente, importante, como se pode confirmar na proposição a seguir:

«O grande poeta, mais do que detentor do grande segredo exclusivo das palavras, é aquele que domina o silêncio», é aquele que cinzela as palavras, impelido pela «sedução do silêncio». O silêncio poético, o silêncio cavado nas palavras, não é puro silêncio, é sensação, transcendência do sentir, percepção alargada da realidade.» Dias (2008, p. 26)
O silêncio emitido por Paula Tavares é por nós percebido, e confirmámos num Café Literário que tivemos no ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação, de Luanda, organizado pelo Departamento de Língua Portuguesa, e pensamos estar na base das formas que enformam os dígitos de Ana Paula Tavares, cujos versos, lacónicos, curtos, soltos ou brancos, são heterométricos. Quanto ao mar de conhecimento que ela possui da realidade, sobretudo do sul de Angola, os seus textos assemelham-se aos produzidos por Ruy Duarte de Carvalho, nos quais há fertilidade duma vasta lavra ideológica que se contemporiza com a vida sócio-cultural e histórica de Angola, o que não está, decerto, de todo, dissociado da nobre «benza» da sua gente e da sua gesta. Com esplendorosa evocação ao remoto passado, Paula Tavares não se alheia do seu cosmos feminino, de afectuosa mãe, acolhedora, protectora, com o olhar analítico voltado ao passado, preparando o presente em cheio, para, posteriormente, perspectivar o futuro.

Ritos de passagem, abordagem no canal Novaangola, no Youtube

A professora são-tomense, Inocência Mata (IM), no seu livro, «Laços de Memória & outros Ensaios sobre Literatura Angolana», tece o seguinte serviço de tecelagem:

«Historiadora, cronista e poetisa, é neste meandro que a escritora adentra pelos meandros da condição angolana, através do eu feminino, escalpelizando as razões dessa condição, ora intentando reordenar um tempo de memórias, individuais e colectivas, feitas sonho…» (2006, p. 139).

A propósito do diálogo que se enraíza nas obras de Paula e Duarte de Carvalho, atrás referido, a professora são-tomense despeja este tempero:
«… a poesia de Paula Tavares (…) – (é) dialogante (na sua) votação à cultura do sul, com a poesia de Ruy Duarte de Carvalho e, (referindo-se à poesia de Paula), tem um lugar interessante na Literatura Angolana…» (Ibidem, p. 145)

Órbita de/em Ritos de Passagem

RITOS DE PASSAGEM faz bailar, na imaginação de qualquer leitor, um conjunto de cerimónias, que envolvem canções festivas; doces danças, alegres; deliciosos sons de batuque; veneradas tradições; emparelhadas rimas; ritmos poeirentos, inclusive lembranças fúnebres; vivências agridoces, nuas, cruas, frias e outras tantas amargas, decorrentes da viagem percorrida por um indivíduo da infância até a idade adulta, momentos, exactamente, vitalizados pelos ritos a que o título da obra se nos translada. Uma obra de leitura afável, fácil e amena, podendo ser transportada, manuseada, em qualquer instante e espaço, pela sua enroupada compostura. O monumento poético, prosa versificada, compõe-se de vinte e quatro poemas, todos, desprovidos recursos fónicos, seu apetecido molho, salvo esporádicas excepções, alheias à nossa observação.

Capa do livro Ritos de Passagem, na edição Ler Angola

Os títulos dos diferentes textos, do manancial poético, constam em primeira mão, para, por conseguinte, confluírem no tema, que é a seiva, o fundo textual. Os versos, escritos com simplicidade lapidar, apresentam palavras que circulam entre o povo angolano, com bastante recorrência a recursos de tropo e outros que recaem no nível semântico, e é por meio destes que o eu poético vaza a sua subjectividade, inundando o firmamento dos textos com palavras saborosas como favos de mel, ou então o maboque da página número quinze, ou mesmo o mamão, citado na página vinte e cinco, ou, ainda, a manga, sita na avenida vinte e sete do livro.

Os textos de Ritos de Passagem têm um forte pendor para a adolescência, fase de inúmeras transformações do ser humano, sendo referenciada com o próprio termo, «adolescência», com o seu adjectivo correspondente, adolescente, outras vezes, com morfemas como «menina, rapariguinha, filha, vacuda», alusão, não raras vezes, conseguida com suporte em figuras como sinestesia, metáfora e alusão, o que se pode comprovar no segundo texto, da obra em ensaio, intitulado «Abóbora Menina»:
«Tão gentil de distante, tão macia aos olhos / vacuda, gordinha, /
de segredos bem escondidos/
(…)
depois é só esperar  / nela desaguam todos os rapazes.»
Tavares (2015, p. 13)

Aqui, com uso da sinestesia, o sujeito poético traz à tona a formosura de uma adolescente, através da aproximação da realidade táctil à visual, ocultas nas expressões gentileza, proveniente do adjectivo «gentil»; «de distante», construção corrente no português falado em Angola, sendo padrão as formas à distância; e maciez, do nome «macio», tacto percebido pelo uso da visão, atirada ao longe, à distância. Esta corrente de pensamento permite-nos olhar para as transformações que ocorrem na adolescência, na pessoa da «vacuda», vocábulo derivado de vaca, transformado através da sufixação, decorrente da supressão do fonema «a» e acréscimo do afixo «uda», empregue , em posição pós-posta, para caracterizar um conteúdo, uma porção tolhida em algo ou por alguma coisa. Quem sabe? Num espaço? Neste caso, faz-se referência à menina, dona/detentora de «banha», gordura, que a torna semelhante à vaca. Há outros significados adstritos à metáfora vaca, a saber: mãe, terra e origem. Este pronunciamento é corroborado pela professora Inocência Mata, que relata:

«O boi e a vaca (…) funcionam como signos tutelares na configuração da paisagem humana, (em que) ”o boi’’ (representa) guia da voz entre ” o som e o silêncio’’ (…), e a vaca… guia também, lenta e firme, (é) representação metafórica da mãe…» (2006, p. 141)         A obra em análise, Ritos de Passagem, apresenta particularidades que embalam entre a Geração de Benguela, pelos textos arraigados nas raízes culturais da terra; a Geração da Mensagem, não nos esquecendo de que a revista com esta denominação tinha sido publicada em 1951, um ano antes do nascimento de Ana Paula Tavares (1952). O outro factor que concorre para o embalo de Ritos de Passagem à Geração da Revista é a impregnação de saudosas vivências do povo angolano na obra e, inclusive, a mesma obra apresenta traços da Literatura Tradicional, pelo emprego de adágios populares, como estes:
«As coisas delicadas tratam-se com cuidado; Chorar não chorar a planície fica na mesma». Tavares (2015, pp. 49/55). O primeiro provérbio fala por si só/mesmo, ao passo que o segundo transmite a ideia de se cimentar a firmeza, diante de situações metamórficas, amorfas, adversas as esperadas, pelo facto de o estado de abatimento psicofisiológico «não dar pão», como diria António Cardoso. Segundo Paula Tavares, as máximas acima citadas fazem parte da «Filosofia de Cabinda».
Reiteramos, Ritos de Passagem é uma obra cuja leitura é recomendada.