Neste artigo, nos serviremos da “poesia” (sentido figurado) para fazer uma breve reflexão em torno da poeticidade nos textos em prosa.  A Literatura (in strictu sensu) compreende vários elementos para que um texto seja considerado literário, e a poeticidade é, em parte, um destes elementos (?). A grande questão que se coloca sobre este tema é saber: o que é poesia? Onde reside e como se caracteriza nos textos em prosa? Entrementes, tentaremos em cada linha deste artigo, responder as questões supramencionadas.

O lexema “poesia”, que arranca a sua essência no verbo grego “poiein” (fabricar, produzir), ou ainda no fenício Phohe (voz, linguagem) e Ish (ser supremo), ganha hoje um conceito in strictu sensu de: arte de fazer versos; conjunto de obras poéticas escritas numa determinada língua e próprias de uma determinada época. Por outro lado, é também entendida no sentido figurado como: tudo aquilo que comove, sensibiliza, encanta e/ou desperta sentimentos; qualquer forma artística manifestada pelo belo.

Existem vários seres humanos na face da terra que acreditam que a poesia é ou está apenas nos textos poéticos. Na verdade, a poesia pode estar em tudo e é muito subjectiva: pode estar num quadro de Paulo Jazz, Benjamim Sabby ou Kiluange Kia Henda; no chirleio de um passarinho, nas composições de Paulo Flores ou nos desenhos de Andegraff; a poesia está nos olhos de quem vê ou no coração de quem sente. Pensar que ela é ou está apenas nos textos poéticos é tão redutor e antiquado como pensar que outrora o mundo era segurado por quatro elefantes gigantes.

A poesia não reside tão-somente nos poemas, embora os grandes textos poéticos serem fontes puras de poesia. Existem porém, poemas que não têm poeticidade e deixam muito a desejar pela insuficiência artística que apresentam, mas nunca deixam de ser poema; e Aragon vai concordar connosco quando diz o seguinte: «Lorsq’un poème est écrit en vers e qu’il plat, sans retentissement poétique, on ne dit pas de lui que ce n’est pas un poème, mais que c’est un mauvais poème». Aragon Apud. Vaillant (1992, p.20)

A poesia nos textos prosaicos reside no belo, no estético e no fantástico. Cada autor confinado à sua ideo-estética apresenta a sua cosmovisão e sua capacidade de inventar ou reinventar mundos com palavras. É, pois, o macro-exercício do belo, do estético e do fantástico que torna um texto poético. E, a título dessa perfeita combinação, aduzimos-vos o seguinte texto:

«Os rios contorciam-se, enforcavam a cristalina beleza da água perante a transbordante beleza de Yamuka. O mar enrugava o rosto, dobrava as unhas e num toque de mágica, fumava o corpo, quando avistasse na cicatriz da brisa a divina canção, erguida sobre o poço misterioso da garganta de Yamuka. Era ela, Eva antes do pecado, o mundo depois do Dilúvio». ROSA, Gabriel (2016) «Coleccionador de mulheres» in Tunda Vala ; Luanda, Litteragris, p. 110.

Os artistas devem procurar sempre pela melhor combinação dos signos com vista a alcançar o melhor efeito poético. Reparámos que no texto supracitado, o narrador podia simplemente dizer que Yamuka era bonita, mas não o fez. Ele faz recurso a uma linguagem sublime usando várias palavras, quando podia usar apenas três; e deste modo, espalhou arte literária no fluir de uma linguagem que deixa em cada linha um pedaço de poesia.

A poesia nos textos em prosa caracteriza-se pela liguangem, isto é, pela forma como cada escritor manifesta os seus pensamentos, ideias e/ou sentimentos.

«O monstro tinha a forma de um kazumbi dos filmes: cabeça de tanque, braços metralhadora e era sem pernas e sem asas, mas andava na terra e rasgava as nuvens em voos aterrorizadores e cuspia balas e bombas». SIMBAD, Hélder (2016) «Kalombolombengo» in Tunda Vala ; Luanda, Litteragris, p. 141.

A poesia encontra a sua materialização, na forma surreal com que o narrador (entidade fictícia criada pelo escritor) narra cada momento da acção fictícia; na forma lunática como caracteriza ou descreve as personagens, o ambiente e os espaços, num tempo que culmina com uma leitura divinal.

O leitor é um descobridor de universos, estilos, sonhos e beleza; é a ponte que separa a qualidade da não qualidade. O que seria da arte literária sem o público leitor? Um grande escritor, crítico ou ensaísta, é antes um grande leitor.

A relação entre o leitor e o texto deve ser dialogal, na medida em que este esteja a nível do texto, isto é, o nível de leitura é bastante importante para classificar se um texto tem ou não poesia. No entanto, um texto pode ser poético para alguns e não para outros, de acordo a cosmovisão de cada leitor e do conhecimento prévio que este acarreta sobre a poeticidade de um texto literário em prosa. Existem porém, textos que dispensam qualquer classificação quanto a sua poeticidade, pois falam, por si mesmos, ao apresentarem um nível elevado de poesia.

Nesta breve viagem em torno da poesia, pudemos perceber que o centro da poesia nos textos em prosa está na linguagem; na combinação da literariedade com ficção. A utilização de palavras difíceis num texto, obrigando o leitor a fazer frequentemente recurso ao dicionário, não torna um texto mais poético, pelo contrário, desvaloriza o papel do belo e instabiliza a boa relação que deve coexistir entre o texto e leitor.

Salvaguardando o papel do belo na arte, pensamos que a poesia deve ser um elemento indispensável nas mais variadas formas artísticas: literatura, música, dança, artes plásticas, escultura, etc. A poesia anda dispersa por aí: no céu e/ou na terra, é apenas necessário que os artistas tragam-na para as suas obras.