Luaia Gomes Pereira conquistou o seu direito de exclusividade, entre os novíssimos da Literatura Angola, ao inaugurar, no plano da ficção literária, uma forma suis generis de narratividade, marcando, assim, qualitativamente, a nova literatura com essa proposta de rejuvenescimento literário que há muito se impunha, intitulando-a «Todos Nós Fomos Distantes».

Em 107 páginas, Luaia Pereira dá vida a uma personagem que se desdobra em três figuras e, embora pertençam a diferentes espaços temporais, coabitam e completam-se através de diálogos intemporais e anacrónicos, estabelecidos entre as personagens, predominando, assim, no plano da enunciação, a narração. Na verdade, no domínio da psicocrítica ou Psicanálise, podemos afirmar, efectivamente, que Eyala, a personagem principal, com outros seguimentos humanos (Umi e Massuela), desenvolvidos a partir da sua psique que, em termos psicopatológicos, padece de uma dissociação do pensamento, com confusões de sentimentos e pensamentos internos e externos, ouve o eco dos seus pensamentos, vozes alucinatórias que, com ela, dialogam na terceira pessoa, afigurando-se-lhes como realidades paralelas e concretas. Assim, Umi, que, de uma leitura apaixonada num diário, personifica-se dando vida a uma personagem que, do ponto de vista cronotópico, a partir do contexto colonial que Angola viveu, cujo tempo cronológico é o ano de 1964, período em que se intensificaram as guerrilhas, consegue estabelecer uma relação muito íntima com Massuela, outro seguimento psicológico do futuro de Eyala.

Trata-se de um romance modernista e híbrido que tem tanto de Romance Histórico (a vivência de Umi e o desejo de Eyala de indagar o passado) e de Romance Psicológico (as decisões e manifestações de Eyala), ao longo do qual se explicitam as perspectivas dos diferentes períodos que compõem o ciclo temporal natural: uma pátria que luta pela sua soberania, com espaço físico numa Angola sob o jugo colonial, portanto o passado; um presente vivido na cidade de Luanda; e uma Angola, num futuro que ela própria desconhece, retratados maravilhosamente pelas diferentes personagens, que, no desenrolar da narrativa, dialogam quebrando o curso normal do tempo.

Umi pertencia a uma família de classe baixa, cresceu a pedir comida de porta em porta e que, por força disso, foi obrigado a ingressar às fileiras das forças armadas de luta de libertação do seu país aos vinte anos. Os traços físicos são-nos revelados, numa caracterização directa, por Massuela, que o imaginava «alto, figura elegante envolvida em tez negra. Olhos fundos … usava uma barba teimosa …», outros dados são-nos revelados pela conjuntura contextual, ou seja, através de uma caracterização indirecta, e em vista disso podemos afirmar que Umi Weya, socialmente, vem de uma família pobre, no entanto, da classe dos assimilados, pelo domínio da língua e da escrita; fez parte do grupo de guerrilheiros do partido histórico MPLA pelo facto de ser alguém muito próximo de uma das personagens muito referenciada na história de Angola e membro desse partido, Deolinda Rodrigues. Ademais a designação Camarada, lexema surgido do marxismo, utilizado na carta a si destinada, deixa esse facto bem evidente. Do ponto de vista psicológico, Umi era instável, uma pessoa muito revoltada, que, por vezes, perdia a fé e colocava algumas reticências e interrogações ao futuro: «Quem vai, quem se vai embora… Muitos dizem que isso vai virar um inferno, que o melhor é continuarmos como estamos agora» (p. 44). Umi simboliza a persistência de um povo, a necessidade de lutar pelo que nos pertence, a angústia, arrependimento e frustração da certeza que se transformaria em utopia incompressível.

Eyala parecia ser alguém normal para sua geração e, como os jovens da sua época, instável do ponto de vista emocional; jovem de alguns amores, pois era uma jovem ora tão apaixonada ao ponto de se sentir tão amada pelo homem que lhe fazia ser «várias mulheres de uma só vez», ora tão vulnerável ao ponto de beijar os lábios do seu amigo mais íntimo, António. Vivia num dos prédios da baixa de Luanda, perto dos Coqueiros, gostava muito de música e era estudante universitária.

Massuela parece-nos ser alguém solitária, com dificuldade em revelar o seu verdadeiro eu e que, apesar de ser amante da leitura, desconhecia o passado da sua terra. Era tão solitária que fez de um diário o amante que atravessa o tempo para com ela se comunicar através da fala e do toque. Uma jovem mulher negra nos seus vinte e quatro anos e já sofria como um adulta de quarenta, media um metro e sessenta e nove, cabelo crespo, preto, pelos ombros e com um corpo definido. Era alguém que pouco sabia de si. Vivia numa cidade de Luanda diferente, que apesar de manter o mesmo modus vivendi, diferenciava-se por não mais ter os vendedores ambulantes, as zungueiras, os candongueiros e pela nova estação: a primavera. Massuela manteve uma relação com Umi de 2064 a 2065 .

A jovem arquitecta proporciona aos leitores com sensibilidade apurada verdadeiros momentos de prosas poéticas, que do ponto de vista da intensidade, oscila entre o mais poético no acto da descrição de todas as formas espaciais e comportamentais e o menos poético no acto da narração, porém o equilíbrio surge quando reúne na densidade do dizer poético, o dizer filosófico.

A escritora, natural da província do Huambo, revela um domínio aceitável da norma da gramática portuguesa, não obstante envolver registos de línguas diferentes. A narração é construída através de uma linguagem ora literária, ora corrente. Ao passo que os diálogos, situados no presente, envolvem o registo popular:

«À volta, o azul das paredes e o tecto sublime faziam-me campainha» (p. 9);

«Fomos acordados aos gritos e pontapés porque tínhamos de sair onde estávamos. » (p. 22);

«– O paizinho baicou, kota…»

Um dos aspectos a ter em conta nessa obra é o tom, macio, de reivindicação, artisticamente camuflado desde o título, propagando-se ao longo de toda a diegese. «Todos Nós Fomos Distantes» assume-se, deveras, como um título contestatário, uma chamada de atenção para que se olhe à juventude com olhos de ver e dê-se-lhe outro protagonismo. Umi, o passado, explicita os erros e injustiças durante a luta quando denuncia a fome e critica a forma de actuação dos líderes. Eyala, personagem do nosso tempo, representa a comunidade dos jovens mais atentos aos fenómenos sociais. António representa os jovens acomodados com estado actual e Massuela, as incertezas de um futuro.

A jovem escritora, que nasceu em 1992, revela, nesta obra, uma forte preocupação com a cultura angolana, revelando ao universo dos leitores as formas como se anunciam os nossos óbitos – «– Aiwé Paiziinho! Paizinho memo, o meu paizinhué!…» –, o aglomerado de gentes constituídos pela família e vizinhança, os choros habituais de quem o faz com arte, a kissangua, etc.

A senhorita Gomes Ferreira demonstra uma tendência de um Feminismo em alguns momentos da sua narrativa. Ora implícitos, nos traços psicológicos de Deolinda, ora explicitados, através do discurso de Massuela: «os tempos mudaram. Já não estamos na era dos heróis e sim das heroínas.». Ora servindo-se inteligentemente de situações filosófico-gramatical: «Luanda tinha muitas. Seria ela uma poetisa? Ou ele. Mas ninguém falava o meu cidade…». Como é evidente «Luanda» não é precedido de artigo e sem deixar de lado o facto de a maior parte das personagens serem do sexo feminino.

De facto, Luaia Gomes Ferreira revela ser uma excelente leitora e deixa essa sentença explícita ao longo da obra quando se refere a Alda Lara e a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que escreveu sobre os estereótipos que derivam das histórias singulares.

Uma das grandes virtudes dessa obra é o modo como as sequências da narrativa se processam, fazendo o leitor acreditar que na página seguinte encontrará a revelação do mistério. Um romance algo complexo, com vários enigmas nas entrelinhas que se aconselha a ler mais de uma vez sob pena de se perder parte da sua riqueza, porque, às vezes, «os finais felizes não acontecem no final».