É sabido por muitos que a escrita em Língua Portuguesa não corresponde sempre à fala. Esta situação é vista por muitos falantes como uma desvantagem para o ensino do Português, principalmente para pessoas que a têm como segunda língua ou que não a têm como materna. Submetemo-nos, por isso, ao exercício de entender certas realizações, no discurso escrito, da língua mais nacional que temos.

O problema que aqui levantamos, identificado em várias plataformas de comunicação, como redes sociais e outras, é uso simultâneo de porquê e que em frases do tipo interrogativo (parciais), como em porquê que fazes isso? Adiantamos já que não é aceitável, mas o desafio aqui é explicar as razões de se assim proceder.

Inicialmente, devemos entender que porquê, sendo um advérbio interrogativo de causa, introduz uma frase interrogativa formada por ela somente (Porquê?), interrogativas sem verbos (porquê essa cara de tristeza?), interrogativas com verbos mas colocando-se no fim da frase (Vieste sozinho porquê?) ou pode ser um substantivo quando antecedido pelo artigo definido masculino (Eu sei o porquê dessa cara de tristeza.), significando motivo. Como advérbio interrogativo não admite que à sua direita, visto que este pode ser pronome relativo (A guerra que tentas travar não é tua.), conjunção subordinativa (Eu sei que vives sozinho.) ou pronome interrogativo (Que ideia maluca foi esta?). Não nos parece possível, portanto, a expressão porquê que, sendo ambas empregues numa interrogativa.

Por esta ordem, na frase inicial porquê que fazes isso?, retirando que vamos obter a construção porquê fazes isso. Segundo as várias possibilidades do usodo porquê, este não admite verbos em frases interrogativas introduzidas por ele mesmo.

Ao nosso ver, a frase interrogativa em causa é mais uma consequência da discordância entre a escrita e a fala. A única construção próxima da pergunta porquê que fazes isso? é a interrogativa na forma enfática porque é que fazes isso. Esta frase só é enfática, por causa da expressão de realce é que. Quando retirada, obtém-se a forma neutra porque fazes isso. Estas são as construções correctas. Neste caso, o que sucede em porquê que… é uma elisão entre a vogal final de porque e a forma verbal é, isso na interrogativa na forma enfática. Elisão é um fenómeno de ligação rítmica que consiste na contracção de duas vogais em palavras diferentes que se seguem, em que a primeira desaparece diante da segunda de natureza diversa. Ou seja, a vogal final de porque desaparece da pronúncia diante da vogal (forma verbal) é. Tal fenómeno é comum em música e poesia falada. Porém, os falantes, sem se darem conta, apropriam-se desses fenómenos durante a fala. Portanto, usando a divisão em sílabas métricas, obtemos:

Por | que é |que| fa|zes|i|sso?

Passando para escrita, e pelas razões já ditas, muitos falantes grafam

Porquê que fazes isso?

                        Porque +é

provando mais uma vez que há dificuldade dos falantes distinguirem a escrita da fala quando aquela não representa fielmente os sons ou quando a espontaneidade desta altera a pronúncia que o discurso escrito quer propor.