Um reconhecimento institucional e já na décima terceira edição. Por enquanto, é ainda assim que se pode falar de banda desenhada angolana que, na verdade, trata-se de uma simples descrição para identificar o Festival Internacional de Banda Desenhada Luanda Cartoon. É das expressões do mercado de BD nacional que mais soma de reconhecimento generalizado.

Buscamos explorar além deste mercado e fomos à conversa com a Deban Fusion que, em meio a alguns estúdios de banda desenhada, dedica-se na publicação de fanzines (termo para descrever revistas de produção de baixo custo e mesmo caseiro, direccionada a um circuito de fãs ou de amigos). Publica a preto e branco, quase como um estilo, mas é a impressão que está na base dos desafios. Remando contra dificuldades de se estabelecer e manter-se num mercado quase solitário, trazendo publicações em géneros que se marcam pela diferença. São casos das séries Descendentes, Universo Intelectual, Bukada e Kambas, contando a publicação de novos títulos em carteira.

Como surge a ideia de criação da Deban Fusion?

Começamos em 2015 enquanto Deban Fusion, a publicadora, mas já trabalhávamos nessa tentativa, particularmente, com a EclypStudios, que já tem mais de dez anos. Na EclypStudios, começamos a trabalhar no estilo padrão de banda desenhada – clássicos, no estilo Mankiko. Neste percurso, ia aparecendo aspirantes e fomos um pouco mediáticos ao adoptar o que a juventude estava a consumir mais que é o estilo mangá (estilo de banda desenhada muito difundido na cultura popular japonesa). Trabalhamos as nossas séries, buscámos maneiras de as difundir, mas não havia possibilidades. A ideia era fazer pequenas tiragens para, no mínimo, mostrar no Luanda Cartoon que é um espaço que se acolhe muito bem.

A projecção daí, como já havia mais gente na intenção de publicar, foi criarmos uma revista que agregasse todos os trabalhos produzidos. Mas aquilo ficaria extenso e constituiria custos altos. Então, juntámos o pessoal dos estúdios EclypStudios, Omega Cosmos, PMS. Decididos começar nas fanzines, tiramos as séries Descendentes, Bukada e Kambas.

A ideia da Deban Fusion é continuar uma publicadora de fanzines ou alargar a publicações de larga dimensão?

Numa primeira fase, tentamos com fanzine na intenção de conquistar o povo. Com fanzines, não temos, necessariamente, aquela obrigação de legalização, cumprir parâmetros que ainda não podemos. O foco é de lá para frente atingirmos essa dimensão, não só a nível nacional. Estamos em busca de conquistar o mercado. Estudar e compreender como é o nosso mercado.

Ainda nesse mercado de fanzines, há aceitação considerável? E, a partir desta aceitação, há como estabelecer-se a um nível superior?

O projecto está feito, mas há um problema neste país, algo que não aprendemos enquanto EclypStudios, era aquela ideia de ser miúdos, criando uma editora, depois veio a ser questionado o estilo, por ser estrangeiro.

Aconteceu-nos uma vez ao irmos ao Luanda Cartoon, com alguns exemplares sem fazer apresentação, simplesmente vender. Na mesma noite, os livros, que eram por volta de 80 livros, todos foram vendidos. Isto faz-nos perceber que há mesmo público, jovens que estão a consumir do mercado japonês e do americano. Embora estejamos parados agora, realmente, achamos que há uma aceitação.

A que se deve esta paragem?

Para ver uma nova estratégia. Verificar métodos de vendas. A princípio, pensávamos que o problema eram as máquinas. Conseguimos elas com nosso próprio financiamento, mas, depois, nos encarámos com essa questão das vendas. Somos uma equipa tipicamente de criadores. Chegou-nos alguém que se mostrou disponível para estar a frente das vendas, e atribuímos-lhe essa responsabilidade, e nada se conseguia obter de resultado. Optamos, inclusive, com ardinas que vendiam as séries, mas os pagamentos ficavam sempre adiados. Várias vezes, não apresentavam as vendas. Isto dificultava.

No vosso modo operacional, vocês têm uma equipa responsável pelos roteiros próprios ou vocês recebem estórias de pessoas/escritores externos? 

Há revista em que apenas uma pessoa trabalhou seja no roteiro, no desenho e pintura digital. O processo na banda desenhada está ligada, basicamente, a estes três, podendo ser mais, dependendo da periodicidade. Numa primeira fase, é um circuito fechado… já tivemos situações em que fomos chamando outros intervenientes. Algumas destas pessoas vêm, depois desaparecem. Mas, se há pessoas com estórias, nós recebemos, verificamos e indicamos a desenhadores. O mesmo acontece com desenhistas, porque há aqueles que, mesmo tendo habilidades para o desenho, podem não possuir um bom roteiro.

Há um confronto entre as publicações nacionais e as internacionais que acabam por chegar?

Não tem sido difícil, embora ainda se tenha aquela percepção de que a banda desenhada seja para criança, que não é verdade. Alguns livros entram, normalmente, como a Monica e estilos asiáticos. Agora, com a crise dos dólares, está um pouco difícil trazer as publicações estrangeiras. A oportunidade de nos estabelecermos com pouca presença estrangeira está aí.

Mas esse confronto pode se resumir a estilo, a comédias, estilo de acção e os mangás. Há capacidade de nos situarmos neles, alguns tentam mesmo fazer frentes a publicações estrangeiras. Há muitos super-heróis já criados por angolanos.

Sobre a crítica especializada de BD’s em Angola…

Tem uma critica, mesmo não constante. Digo isso, porque, mesmo os críticos literários podem fazer críticas sobre bandas desenhadas, embora os grafismos façam parte também do olhar da literatura.

Olhando assim, para o lado autónomo, a Banda Desenhada já teve uma época boa: foram os anos 90. Foi uma época do auge da Banda Desenhada em Angola. Teve Henrique Abranches, mesmo Pepetela escreveu para revista do Mankiko, mas, depois, bruscamente, caiu, desde o princípio de 2000 até hoje e não se consegue recuperar. Talvez seja falta de motivação, porque estiveram metidas pessoas hoje conhecidas.

Está assim tão mal o contexto actual, em todos níveis?

Depois deste apogeu, só o Luanda Cartoon é que representa a banda desenhada. Só uma vez por ano, arrisca-se mesmo dizer que só um dia por ano, é que se fala de banda desenhada em Angola, porque, mesmo no Luanda Cartoon, é só o primeiro dia que merece algum destaque, de resto, o festival fica restrito à classe e um número reduzido de visitas. Outros nem vão tanto pela banda desenhada, mas talvez pela animação.

Fora disso, há imenso trabalho engavetado… e se sair alguma publicação é no Luanda Cartoon que se poderá conhecer. Esse trabalho fica engavetado muito por causa do processo de impressão; o trabalho na gráfica fica com preços que mesmo as vendas não corresponderiam fortemente.

O surgimento da Deban Fusion é uma prova de associativismo entre diferentes estúdios. Em toda comunidade da banda desenhada há este espírito de associativismo?

Essa ideia de associação é antiga, mas há um choque enorme. Aparecem nisso os percussores (old school) e os emergentes (new school) com ligeiros  confrontos. Mas há um respeito pelos principais percussores; está ali o Sérgio Piçarra, que agora lançou o livro, e faz publicações para o Rede Angola.