Dono de um curriculum invejável que remota do final dos anos noventa (1999), desempenhando funções como Designer Gráfico, Motion Design, Desenhador, Ilustrador, passando por empresas de renome na área gráfica tais como Orion, Marketing Link, M’LINK, Maianga Produções e, além disso, desempenhando funções administrativas que variam entre Director Administrativo, Director Executivo à Director de Projetos. É indubitavelmente um dos colossos da nossa indústria gráfica.

 Palavra&Arte: Olhando para sua carreira, como conceitua a arte gráfica?

Sebastião Delgado: Assim como todas outras formas de expressão, a arte gráfica é uma necessidade que sempre acompanhou a civilização humana. A necessidade de passar uma informação com objectividade e eficiência faz da arte gráfica algo indispensável.

Desde 1999 para cá, houve, claramente, uma evolução tecnológica astronómica. Ao seu entender essa evolução técnica se reflecte em qualidade na nossa indústria doméstica?

A evolução tecnológica reflectiu-se em qualidade e quantidade. Hoje há mais Agências de Publicidade e Marketing e Produtoras assim como designers gráficos que não podem ser confundidos com “Panfletistas”.

O que leva um menino de pouco mais ou pouco menos de 21 anos de idade enveredar para as artes no contexto em que Angola vivia 1999?

S.D.: O dominar das técnicas do desenho tradicional ajudou-me muito a safar-me de alguns vícios da adolescência e seguir este rumo. Antes sem direcção e para ganhar a vida, fazia os trabalhos de E.V.P dos vizinhos do bairro, depois passei a desenhar letras nas igrejas “for free”, de graça (sorriso) e depois paredes das empresas a ganhar algum. Mas, graças a Deus, na busca do primeiro emprego, conheci o Sérgio Guerra que deu-me uma oportunidade e o resto foram muitas noites perdidas (riso).

Quais eram as referências profissionais que haviam naquele período, digo, no período de pré formação?

Como desenhador, já havia alguns nomes como do espectacular Xavier que desenhava nos edifícios, e até hoje nunca descobri a técnica dele (sorriso). Para designer, na época, não havia muitas referências, talvez porque pouco sabia a respeito, mas houve a Executive Center e a Rúben Design.

O designer gráfico nunca deve sentir-se autônomo quando está a prestar serviço ou é funcionário de uma empresa

 A impressão que se tem, para quem vê de fora, é que os artistas gráficos são demasiado autônomos, dificultado assim as honrarias que deviam ser feitas a quem desenvolve um trabalho de qualidade. Como vê essa questão?

(Sorriso)… Realmente essa é a impressão que se tem dos designers. Tudo é uma questão de disciplina e educação de cada indivíduo. O que deve exigir-se dos designers é prazo e não horário. Pode haver uma flexibilidade no horário de entrada, afinal, ele não pode vir trabalha quando os outros estão a sair, mas tem de ter senso de responsabilidade.

De nada serve um designer que chega às 6h30 e sai às 16h30. Ele deve honrar prazos, “dead line”. O designer é um profissional que faz uso do seu conhecimento técnico, psicológico, cultural, estético, ético e não pode sem repetir os trabalhos, a campanha “Z” igual ao “A”. Esta repetição só aparece quando o designer está descontente, dorme pouco, está aflito ou tem preguiça. Se dormires bem, acordas bem, comes bem, trabalhas bem, e ganhas bem. Assim voltas a dormir bem. É assim o ciclo de viver bem.

O designer gráfico nunca deve sentir-se autônomo quando está a prestar serviço ou é funcionário de uma empresa. Deve tornar-se parte do grupo de trabalho. Não criar a relação de “Vendedor e Cliente” ou do “Craque sabe tudo”. Este comportamento vaidoso deve se evitar, pois não traz felicidade nem harmonia ao trabalho. É muito importante haver felicidade no trabalho, a criatividade flui.

Aguinaldo Jaime

 E por falar em honrarias, além de si próprio, qual profissional indicaria como referência para a nova geração?

São vários, mas vamos a alguns nomes: Carlos Guimarães, Cláudio Rafael, Tche Gourgel, Januário Jano, Manetov Verga, Gervásio Melo, António Páscoa e Seba Lopdel (risos). Estes designers, com o seu trabalho, têm levado as marcas e o nome de Angola além fronteira. Tenho aprendido muito com eles. Quando eu for grande, quero ser como eles (risos).

 É possível identificar um legado das gerações passadas para a actual geração? E se sim, ele é assimilado pelos novos?

O nosso legado não é uma linha gráfica “mwangolé”, mas sim, como o exemplo de que os angolanos podem fazer coisas boas a nível nacional e internacional. Somos tão criativos que podemos fazer brotar flor no deserto. Isso tem sido assimilado, sim. Para mim, este é o legado e a história que eu, Sebastião Delgado, quero ajudar a escrever em Angola e no mundo.

a arte abriu-me a mente, mostrou-me infinitos caminhos que procuro explorar

Qual é expectativa que tem em relação à nova vaga de artistas gráficos?

Tenho muito boas expectativas dos designers. O domínio das técnicas e ferramentas já é aceitável. Brevemente estarão a criar uma linha gráfica angolana sem igual com aceitação nacional como o Semba, Marimba, Samakaka e o Mufete.

A formação nessa área parece ainda não ser tão explorada. O que impede os profissionais experientes a criarem ateliers de formação artística?

A carência é real e berrante em Angola para formação profissional dos designers gráficos. Nós, profissionais desejamos muito dar formação, mas esta tarefa deve ser um trabalho conjunto com forte participação directa do Estado angolano e dos designers profissionais.

Para montar um centro de formação, precisa-se de autorização, dinheiro e etc, etc… Este trabalho social e colectivo deve ser acompanhado pelo Ministério da Educação, Min. da Comunicação Social, Min. da Reinserção Social, Min. das Ciências e Tecnologias, Min. da Saúde, Min. da Justiça e Designers profissionais.

Nós conseguiríamos criar postos de trabalho e evitar o caminho de muitos jovens para criminalidade, dando-lhes uma formação técnico-profissional.

Que caminhos a apontar a potenciais interessados nessa forma de arte?

Para os potenciais interessados, o caminho é fazer o curso de desenho para quem consegue desenhar (OBS: O bom designer nem sempre sabe desenhar), curso de línguas, curso de informática, nos softwares, Adobe Photoshop, Adobe Ilustrator, Adobe After Effects, Adobe InDesign. Ler muito, ter mente aberta, fazer para aceitar as diferenças sociais e culturais, assim como opções de cada um, pesquisar muito, praticar, criar uma análise filosófica e aceitar críticas, ser humilde e ser paciente.