As “palavras” e os “sons” eram como matéria-prima de uma nave espacial que nos abduziu da LAASP para uma metrópole em que ideias aparentemente conflituantes, literalmente, partilhavam o mesmo palco. 

Tudo aconteceu no passado 6 de Junho, numa noite de quinta-feira que tinha tudo para ser uma noite qualquer. Isso se os jovens da Arte sem Letras não fossem tão inventivos. Como a realidade, por vezes, supera a imaginação, nada poderia denunciar que entre a densidade do trânsito de Luanda, entre o impermeável espaço de estacionamento da cidade, jovens construíssem um laboratório de democracia.

A assertividade do evento começou com a precisão de um ponteiro de relógio. A pontualidade foi como o içar da bandeira de uma organização destemida. Ficou claro que o compromisso era com os que fizeram esforço de chegar a horas.

O evento abriu com um Poeta chamado Micro Profecia que fez um diagnóstico social em que sua análise detectou um vírus. Um vírus que, segundo o autor, tem conturbado muitos lares angolanos e destruído intimidades: a pornografia. A seguir, um trio musical assumiu o mastro da viagem, Omwenho Groove; era da banda. Não podia ser mais apropriado. A partir daquele momento, o evento ganhou mais vida, como se o nome da banda fosse um presságio do que viria a acontecer – para os mais distraídos, Omwenho é uma palavra em umbundu que significa vida.

Posteriormente, chegou um dos momentos mais aguardados da noite, a apresentação de Willis Ribeiro que é, actualmente, um dos slammers mais conceituados da nossa praça, sendo o campeão do Kassamba Slam 2019, e que foi um dos cabeças de cartaz do evento. A apresentação, a dado momento, integrou a dança contemporânea e a música.

Momentos mais adiante, outro anfitrião deu as caras, Dr Beleza era o nome do artista, também apelidado por Cantor Panó. A experiência musical trazia uma abordagem provocativa e sensual num ritmo contagiante que fez a plateia levantar e dançar, dando um show à parte.

O cantor assumia em suas letras muitas musas inspiradoras que explicitamente dedicava seus desejos libidinosos. Um dos momentos mais marcantes da noite foi quando uma dessas musas, aparentemente da religião muçulmana, subiu ao palco a pedido da plateia para cumprimentar o artista. Sem se desfazer da sua cultura, aquela jovem mulher deu uma lição de tolerância e conservação dos próprios nortes morais.

O espectáculo que começou com um manifesto anti-pornografia, migrou para um mar de erotismos. Mas havia mais…

A música deu espaço para o humor. E o irreverente Orlando Capata levou a plateia dos risos contraídos aos risos descontraídos pela ousadia de satirizar o feminismo. Esta descontracção típica é de quem percebe que, para aquele humorista, o universo das opiniões e das piadas eram distintos.

A proposta de reunião de três disciplinas artísticas foi muito bem conseguida. A única ressalva que se faz às organizações esse tipo de evento é um desdobramento mais criativo e eficiente na hora da divulgação.