Num sábado último de um mês, vi-me no meio do mercado dos Congolenses que, afinal, é Congoleses, a fazer aquilo que a sociedade incutiu aos cidadãos ser responsabilidade de mulheres. Se é ou não é, não é assunto para este “fórum-texto”. Compras. Acredito que todos os mercados em todas as partes do mundo são assim, em geral, mas só mesmo nos nossos mercados é que se vê bermas do asfalto transformados em bermas de exposição de produtos alimentares à venda, e os carros a dividirem o seu espaço por direito de trânsito livre com peões e clientes, em apertos arriscados que só não acabam em acidentes, porque os automobilistas não têm tido espaço temporal para apertar o pé ao fundo do acelerador. Além destas coisas meio tristes, mas que fazem do mercado dos Congolenses ser o mercado dos Congoleses, vi de perto a cultura de “sócia”.

A cultura de “sócia” consiste na divisão do valor total de mercadorias em caixa. Se uma caixa de coxa de frango custar oito mil kwanzas, duas pessoas ou mais juntam partes iguais do valor total e compram a caixa, dividindo-a em partes iguais para cada pessoa ou “sócia” da “sociedade”.  Como disse, as compras são normalmente trabalho de mulheres e só por isso é que esta cultura não se denomina “sócio”, nem que uma das partes da partilha ou divisão seja homem, como foi o meu caso naquele dia. Portanto, há aqui também uma ruptura às normas do Português que diz que um adjectivo que se refere a dois nomes de géneros diferentes mantém-se no masculino e passa para o plural. O único envolvimento masculino neste processo são os jovens que têm o trabalho de, primeiramente, chamar aos pequenos gritos pelo mercado por “sócias”, adicionando neste chamamento o produto de que precisa de “sócia”. Esses jovens reduzem o trabalho do cliente e aparecem com uma lista de preços de diferentes produtos, embora haja aí alguma especulação. Porém, isso varia de armanzém para armazém. Ou seja, em alguns, os “chamadores” limitam-se a encontrar interessados, diria mesmo interessadas, em associar-se a outras para compra do produto em causa. 

Todavia, por incrível que venha parecer, o meu interesse nisso não reside em toda narrativa anterior sobre a cultura de “sócia” que facilita as famílias segundo as suas novas realidades sócio-económicas que o país impõe. A questão real é: como podemos “roubar”, “pedir” ou talvez copiar esta cultura para as artes, particularmente literatura?

Editar um livro está cada vez mais difícil, embora nos últimos cinco anos tenha sido editado muitas obras literárias, contrariando a situação actual. Porém, quem consegue editar tem dinheiro ou tem quem pode pagar por ele, não importa se por edição “independente” ou não. Aqueles que deviam investir ou comprar o talento do escritor e fazer disso um investimento para ambos vendem serviços por milhões de kwanza. Não há pobre escritor que aguente. Mas dois pobres escritores pode dar em apenas dois escritores e diminuir a condição de pobreza. Ou seja, por que é que aqueles que têm condição financeira não dão boleia no seu livro um escritor que não tenha como pagar a edição de um livro? Ou por que é que dois ou mais escritores não juntem os seus pobres kwanzas para editar um livro e escreverem os seus nomes no livro da Literatura Angolana?

Muitos podem estar a pensar que isso já se faça, que as coletâneas ou antologias sejam exactamente a tal cultura de “sócia” que proponho à literatura. Mas não. A forma como surge as colectâneas e antologias, o número de autores que as constituem são diferentes. Estou a falar de se editar, por exemplo, um livro de romance em que os dois “sócias” coloquem num único livro os seus romances, neste caso, desde que sejam romances de não muitas páginas, conseguindo um livro, pelo menos, de não mais de 300 páginas. Se der com romance, obviamente que dará com novela e conto. Com este último subgénero, já houve interesses de indivíduos que tiveram uma ideia parecida, com a diferença de o financiamento não sair do bolso dos escritores participantes na obra, além de serem muitos, embora neste caso se perceba por ser uma narrativa muito curta. Porém, tal obra não sai, porque se ficou apegado à ideia de financiamento. Em outras palavras, está na hora de não apenas pedirmos financiamentos, está na hora de nos auto-financiar nem que for pela cultura de “sócia” para assim darmos a conhecer os nossos talentos aos nossos potenciais financiadores.    

Por essas e outras, a cultura de “sócia” precisa-se para também se cimentar ou fazer nascer a tal união que tanto se espera existir entre os fazedores da mais nova geração e, talvez, fazer melhor, por bem da nossa literatura, que as gerações anteriores.