Madrugada é solilóquio junto ao mar parado. Digo, afirmo e reafirmo: não gosto de perder o sono pela alvorada. Quando fico sem sono, pela madrugada, sofro imenso. Normalmente, tento trabalhar. À madrugada, isso traduz-se em escrever, ler ou ambos. Algumas vezes, não tenho vontade de nada disso. Hoje, por exemplo, não me apetece fazer nada. Estou quieto na cama. Oiço o latido e o vrum-vrum dos carros. E tudo é-me indiferente. Podia aproveitar, essa calmaria para escrever. Tenho, também, relatórios, métricas por analisar, mas nada disso farei. Talvez pudesse ler. Mas tenho preguiça de me levantar. Deixo-me estar sossegado.

Enquanto isso, luto para alcançar o sono. Mas um ciclone de reflexões ronda por aqui e atrofia-me. Tento evitá-lo. Sem sucesso! Houve tempos em que usava a madrugada para falar ao telefone. Tempos memoráveis. No tempo de um saldo grátis depois das zero horas ou de qualquer outro plano das nossas telefonias. Naquela altura, como a paixão estava em alta, os recém-namorados prometiam-se o Eldorado, soprando um para o outro delírios afáveis aos ouvidos. A dor de doer doía quando o “saldo das zero” zerava precisamente no momento sexual da conversa. A saudade, diminuta, demorava apenas até a próxima ligação. Por telefone, continuavam, intimamente, ligados. E masturbavam-se durante o sexo imaginário. Sonegavam o tabu para o falar de pernas abertas: «Imagina que te pego o pau, enfio-me, devagariiiinnnho!». Nas suas odes, a quadra clama pelo pincel: «Vai, pega, estou molhada!». Ele, num salto milimétrico, escrevinha: « …agora estou a lamber os teus seios… hum, hum!». E ambos gemiam: «Aaah, aa’sssh, aaaah». E ensaiavam dor: «Asssh, asssh, aaaaí, sinto!» Sentiam igual sexo presencial. E se vinham. Depois trocavam a cassete com a promessa com pressa de ser cumprida: «Vamos continuar pessoalmente!». Foi um período das vindimas. O sexo nunca esteve tão no apogeu como naquela altura.

Dionísio, deus da safra, via cenas repletas de sensualidade. Como a do Marido que abandonava a Mulher, altas horas, para comer a Amante fantasiada de sua própria esposa. Ele dizia que ela já não tinha a pujança de outros tempos. Com isso, a Amante era feliz. Toda amante é feliz até que se descubra a façanha. Um dia, Marido e Amante foram encontrados a se «tarracharem» na cama do casal, pela Mulher. A Puta de Merda foi sacudida pelo trovão. O Cão de Merda teve de ir reclamar, com o seu membro viril, à casca-da-rolha. Aprendeu, duramente, que mulher revoltada é trovoada, faz estragos. A Mulher, a testemunhar a traição, pôs, na hora, o fim aos dezasseis anos do casamento. Pode ser que tenha acontecido alguma reconciliação, mas, hoje, o Cão de Merda não tem mais caralho para pôr no chaveiro. Isso vale para dizer que crime não compensa. Rio-me sempre destas histórias. Acontece-me, quase sempre, rir com assuntos delicados. Como da última vez…, verdade seja dita, não foi a última.

O que aconteceu foi o seguinte — estou a ficar com sono — havia uma rapariga a quem me devotei com uma entrega incomensurável. Ela chamava-se… — o sono está mesmo a vir… — chamava-se…uff! Está duro isso. Acho que vou ter de ir lavar o rosto… já são seis horas e onze minutos. A continuidade dessa conversa terá de esperar a próxima madrugada.