Andava num candongueiro que rodava perdido nos asfaltos maltratados pelas chuvas torrenciais de Março e que trazem à tona a vergonha de uma Luanda suja, porém vestida de prédios importados da China, munidos de uma tecnologia de ponta de se lhes tirar o chapéu. Eu, dentro de um Acaba de me matar, nome carinhosamente atribuído a um tipo de Hiace cuja beleza foi tirada e roubada pela ignorância dos homens, ouvia o sussurro do silêncio mergulhado numa solidão falante e com mãos. Tudo parecia já não fazer sentido. A existência e a crença humana não passavam de meras ilusões. Até o próprio sentido parece ter deixado de fazer sentido.

De repente vi, ao longe do outro lado da estrada, o sorriso amarelo de uma criança que zungava pela calçada. Aquele sorriso de cor da poeira dos musseques de lata, dos musseques sem pão, água e luz e cuja luminosidade nocturna deriva das balas dispersas que cantam nos telhados tombados pela dependência de um Executivo assaltado por homens sem nomes. O sorriso… ah o sorriso! Aquele sorriso desenhado pelos dentes amarelados entres os lábios carmesim, faziam uma sintonia perfeita como Paulo Flores deslizando num Semba ou até mesmo uma poesia escrita por um poeta de sentimentos jubilosos, qualquer coisa parecida com Viriato da Cruz no “Namoro”. Então pensei em nossa existência: não seria ela um sonho de uma bela criança zungueira?! Não sei. Sinceramente não sei filosofar a existência.

O sorriso empoeirado daquela menina que zungava pela calçada despertou em mim sentimentos nunca antes vividos. Deu-me o privilégio de pensar o Homem enquanto Ser e Medida de todas as coisas. Afinal… quem somos nós? Qual é o derradeiro fim de tudo que fazemos? Isso, confesso, não sei responder.

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No meio do trânsito lento, por causas das crateras reveladas pelos aguaceiros de Março, observava a menina bronzeada pelo sol infernal das doze, como se tivesse qualquer paixão pelo que faz por obrigatoriedade. Avenidas e becos da cidade capital eram o seu mercado. Observava-a com duas embalagens de água fresca, equilibrando-as sobre as mãos. A majestosa imundice que ostentava contrastava com aquele sorriso gracioso que já me parecia agradável, familiar. Por entre sorrisos amarelados e esbranquiçados, sussurrámos palavras de saudades de uma realidade por mim cada vez mais desconhecida. Era o absurdo na sua forma mais filosófica! Sim, o tão luminoso sorriso empoeirado trazia, em si, uma alegria que transcendia o sofrimento e as vivências de uma classe subjugada e apagada do convívio social boémio que habita do lado de lá, onde humanos partilham o amor com gatos e cães vadios.

Apesar de tão sorridente, a menina franzina e maltratada pela vida carregava em seu corpo o sentimento de várias crianças que desde tenra idade conhecem a dor do luto. Crianças sem identidade, que desconhecem o amor de um pai e sofrem as consequências da fuga à paternidade, provocada por progenitores que se negam a assumir filhos feitos em momentos de pura diversão.

A menina não passava de um mero poema de um livro ignorado numa estante exposta em hasta pública, nesta sociedade consumista, onde homens com olhos e ouvidos já não ouvem o sussurro e nem vêem os acenos da felicidade. Mas, naquele instante, o sorriso empoeirado desabrochou em mim a poesia que dá sentido à nossa existência. Aquele sorriso de cor da poeira disse-me para não forçar o estado das coisas. Não impressionar. Disse-me para deixar o amor fluir de forma espontânea feito brisa acariciando um rosto triste, algures. Pediu-me para buscar a compreensão de mim mesmo e disse-me que a felicidade sublime consiste no conhecimento de quem somos e na relação permanente com o Cosmo.

Num ápice, desci do candongueiro e fui em busca da menina ou quiçá do seu sorriso. Mas não tive sucesso. Infelizmente aquele sorriso empoeirado era fruto dos meus sonhos.