Toda narrativa é produzida em função duma determinada circunstância histórico-cultural. Toda literatura encerra um substrato cultural dum povo específico, e os movimentos literários configuram-se como uma das expressões psicossociais dos diferentes estágios literários . Assim, falar de surrealismo, in strictu sensu, na literatura angolana pode acarretar consigo alguns problemas conceptuais. Em contrapartida, seria pouco inteligente negar a influência desta escola, ainda que de forma inconsciente, na literatura angolana, fundamentalmente naquela que começa a surgir a partir dos anos 70.

É importante referir que a narrativa angolana não se resume aos textos orais e na produção dos nacionalistas; que o dinamismo da literatura angolana não se consubstancia apenas na continuidade dos nacionalistas. Hoje, ela move-se com escritores de diferentes períodos e sob diferentes perspectivas e tonalidades. Faz-se necessário dizer isso, porque nos parece, mediante os estudos apresentados, que há pouca preocupação por parte dos críticos e dos teóricos em estudar o fenómeno literário nos moldes que se exige.  A narrativa angolana contemporânea, de um modo geral e especialmente a surgida após a independência, carece de mais estudos profundos e aprofundados. Há diversos estudos sobre obras isoladas e alguns estudos no âmbito da literatura comparada, quase sempre na perspectiva historiográfica e crítica. É preciso extrair delas o que existe de mais geral e formular teorias que vão de encontro com os diferentes estágios da nossa literatura. E hipoteticamente poderão surgir questões do tipo: a narrativa angolana contemporânea explica-se sob um viés universal? O tradicional oral ainda constitui a sua base?

Se, por um lado, subscrevemos a posição de Barth, segundo a qual todos os povos constituem as suas próprias narrativas, por outro, devemos reconhecer que, por ser a literatura manifestação de diferentes subjectividades, torna-se impossível criar uma teoria geral homogénea sobre qualquer género. No entanto, ainda assim, acreditamos ser possível encontrar um tronco comum para explicitar a narrativa ou as narrativas dum determinado tempo. Por isso mesmo, torna-se possível falar dum surrealismo ou simplesmente de manifestações surrealista na literatura angolana.

Pela dimensão antropológica do povo angolano, no estudo da narratologia, ter-se-ia sempre em conta a «oralidade» como um factor de semiose, intrínseco à narrativa angolana(?). Mas devemos reconhecer que determinados encontros histórico-culturais fizeram com que o homem angolano fosse distinto em sua dimensão identitária. E diante desse facto, as posições filosóficas sobre vernaculismo e alienação são variadas, carecendo de análises rigorosas. E acreditamos não haver espaço para trazermos à baila a eterna discussão pós-colonial sobre angolanidade literária.

A existência dum povo pressupõe um imaginário. O imaginário angolano configura-se como um vasto repertório cultural plural em razão das diferentes etnias que povoam o seu espaço físico; e cada escritor, se assim entender, deve transportar consigo um grupo ou o projecto nação heterogénea que, por inerência da própria língua portuguesa e doutros elementos culturais, se constituir sempre como uma miscigenação cultural entre África e ocidente. Ademais, é preciso entender que o imaginário colectivo não repele a universalidade. Esta posição pode ser reforçada com o pensamento de Levi-Strauss (Cf. 1991), fundador da antropologia estruturalista, segundo o qual existe uma certa universalidade na mente humana, de tal forma que não existe diferença entre o modo de pensamento de sujeitos das sociedades ditas “primitivas” e da sociedade “moderna”.

Sonata africana, de Vladimir Kush (Moscou, 1965)  pintor que se identifica com o “realismo de metamorfose” ou “fine art”, com desenhos e pinturas que formam imagens “impossíveis”, se utilizando de truques de imagens e/ou elementos que se formam em outros. Em relação ao “African Sonata”, o artista diz que o trombetear dos elefantes é um som de alegria que surge com o aparecimento de seu rei, seu mestre. Os elefantes chamam outros animais e aves para comemorar a vida e a ocasião do próprio ser e lideram esta sinfonia. O elefante encarna sabedoria, longevidade, fidelidade, tolerância e compaixão.

Há uma narrativa que se reveste do imaginário e outra que se insere no âmbito da literatura universal, como amostra do choque civilizacional. Os escritores vão alternando em seus processos. Vejo um Pepetela em «Contos de Morte» e um Luís Mendonça em «Luanda Fica Longe e outras histórias austrais» quase que fiéis ao imaginário angolano em termos da representação do imaginário africano; um João Tala em «Surreambulando» apresentando uma narrativa em que o universalismo sobrepõe-se ao imaginário africano, mas com algum hibridismo, na medida em que aparece uma narrativa cujo evento pode nos remeter ao imaginário africano tradicional; e um Adriano Mixinge em «O Ocaso dos Pirilampos» com uma obra que, segundo a crítica, se constitui como novidade para a Literatura Angolana. Saindo um pouco do espaço angolano, podemos falar dum Amadou Kourouma em «Os Sóis das Independências», um romance em que o imaginário africano ivoiriense é bastante acentuado, e destacaria como exemplo o evento em que a personagem, acabada de morrer, ergue-se, passa por pessoas conhecidas que o reconhecem como morto e dirige-se a terra natal.

O universalismo é o que as sociedades têm em comum, distinguindo-se porém pela exclusividade das suas manifestações culturais. Um evento surreal para um determinado povo pode se apresentar como real para outro ou, eventualmente, parecer-se real. Por isso, para explicitação das obras em que o imaginário africano se constitui como matriz, faz-se imprescindível ater-se à teoria da prosa animista, comummente atribuída ao sul-africano Garuba (Cf. 2003), para quem o tradicional africano será melhor compreendido mediante um viés animista. Tal prosa, em termos teóricos, é designada por Realismo Animista pelo facto de advir dum “inconsciente animista”, permitindo classificar o seguimento literário, constituído pelo conjunto de narrativas em que os elementos da cultura tradicional africana coexistem com os elementos modernos.

Tal «inconsciente animista» resume-se na interpretação de factos sociais como o do irmão que, antes de constituir família, apoiava irmãos, primos e, posteriormente, contraindo o matrimónio com uma bela mulher com que gera filhos, deixa de apoiá-los por força das conjunturas sociais. A interpretação que geralmente se faz é que o irmão fora cozinhado e todos passam a odiar a cunhada feiticeira. Outrossim, seria o caso do milionário e político que se envolve em crimes de branqueamento de capitais, tráfico de drogas e passa a vida a deitar dinheiro pelas ruas duma Angola qualquer. A interpretação desse facto é que o sujeito tem uma jibóia que cospe dinheiro. Em vista disso, torna-se importante referir que, se por um lado, admitimos que há efectivamente influências externas a povoarem a estrutura do nosso subconsciente, não podemos negar a força do nosso inconsciente animista no nosso quotidiano.

O lexema animismo, de acordo o Dicionário Etimológico, tem as suas raízes no latim e remete-nos à «doutrina que considera que tudo tem uma alma». Seus componentes lexicais são: «anima» (respiração, principio vital, vida) mais o sufixo «ismo» (que nos remete a uma doutrina). O termo surge inicialmente no campo das ciências exactas com o médico e químico alemão Ernst Stahl, em 1720, para quem a alma é o princípio de todos os fenómenos vitais, como um estado normal ou patológico. Mas é no âmbito das ciências humanas que ganha mais expressão, tendo sido redefinido pelo antropólogo inglês Sir Edward B. Tylor, em 1871, na obra Primitive Culture (A Cultura Primitiva), com a ideia de que “todas as coisas têm alma ou espírito ”. Usa-se o termo animismo para se referir à Literatura e de um modo geral à arte africana com a finalidade de fundamentar rigorosamente os eventos supostamente insólitos, evitando recorrer aos conceitos ocidentais que, até certo ponto, acabam sendo limitadores em razão da dimensão antropológica dos povos africanos. Lexemas como “fantástico” e “mágico” remetem-nos, à partida, ao ocidente, na medida em que, segundo Wittiman (2012), referindo-se seguramente ao tradicional africano na cultura africana, “o sobrenatural é natural” e não se pode entender a literatura africana sem compreendê-la como um continente de mentalidade animista. Segundo Abranches, a expressão “realismo animista” foi sugerida inicialmente em Angola pelo escritor Pepetela por via do romance Lueji (1989): «Eu sei, Jaime. Por isso te inscreves na corrente do realismo animista…». Para encerrar este capítulo, analisando a dimensão cultural do leitor coevo, deixamos aqui patente que «animismo, realismo maravilhoso e surrealismo na prosa», no âmbito da teoria da literatura, são questões que mais têm que ver com a recepção literária e a teoria do efeito, porque todos estes ismos se esbarram numa única palavra chamada ficção, e a sua conclusão será sempre subjectiva, dependendo, em última instância, das experiências de cada leitor, significando que uma obra pode partir dum inconsciente animista, do ponto de vista da sua concepção, e concretizar-se como um autêntico surrealismo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GARUBA, Harry. (2003). Explorations in Animist Materialism: “Notes on Reading/Writing African Literature, Culture, and Society.” PublicCulture.

GARUBA, H. (2003). Explorations in Animist Materialism: Notes on Reading/Writing African Literature, Culture and Society. In: PublicCulture 15, n. 2, pp. 261-285.

LÉVI-STRAUSS, C. & ERIBON, D. (1991). De Perto e de longe. São Paulo: Nova Fronteira.
WITTIMANN, T. (2012). O realismo animista presente nos contos africanos: (Angola, Moçambique e Cabo Verde). Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras, Brasil.