“Tauas”. Sentimos a bofa na cara da senhora administradora e um olhar muito ameaçador ao guarda que a tentava socorrer. O guarda, sentindo-se em desvantagens muscular e numérica, foi confinar-se na sua guarita. E as bofas continuaram a chover por cima da senhora. Ninguém a socorria. Subitamente, a turba cessou sob a voz de mando: “agora vai dividir melhor. Essa merda não é do teu pai, caralho. Foi o governo que enviou para nós. E não te esqueças de ir buscar aqueles sacos que guardaste debaixo da tua cama. Man Guedes, Bade, vão ainda pegar aqueles mambos em baixo da cama desta gaja.”

 A senhora administradora comunal levantou-se, apanhou o par de óculos, que caiu logo na primeira bofa recebida. Voltou a pô-lo e foi  fazer a redistribuição da cesta básica que tinha recebido e sido orientada pela administração municipal a distribuir para as famílias mais vulneráveis, agora com equidade.  “Esta fase da pandemia ’tá distapar todas as carecas. As gatunas sujas estão a aparecer”, disse o mais-velho  Caleya, que dava goles no seu pacote de The Best.

A confusão instalou-se quando um grupo de velhos, jovens e crianças, que faziam bichas desde às madrugadas, notaram que a carrinha Canter, mandada pela administração municipal para distribuir cesta básica às famílias vulneráveis, doações de um grupo de malianos, donos de cantinas locais, fez um desvio imprevisto que durou cerca de vinte minutos, no portão da administradora comunal e, depois, mais outros, obrigados pelo seu chefe de gabinete a quem mais algumas sacolas foram deixadas ficar.  Todavia, foi na hora da distribuição, às 9 horas, que se constatou que os primeiros da bicha foram “mbaiados”, e a administradora dava, pessoalmente, a cesta básica composta por 1 pacote de massa, 1 kg de arroz, 1 kg de sal e de açúcar àquelas caras que ela reconhecia e que, por sinal, estavam no fim da fila e foram chamadas ao telefone pelos seus subordinados. “Mas eu mesmo que ’tou aqui desdas 4, nu estão a me ver?”, reclamou um mais-velho que tinha uns óculos muito escuros no rosto e se apoiava numa bengala. Uma senhora deficiente com a sua filha de, mais ou menos, dez anos, saiu da bicha e rastejou-se até a carrinha meada de comida. “Mamã, aqui mesmo só ficô já bocado de sacolas. Vamo dormir a fome mais hoje”, informou-a a criança que a acompanhava. A senhora ainda mostrou relutância em querer falar com a administradora e lembrar-lhe que aqueles quilos de arroz são para os vulneráveis e não para aqueles cheio de vida que estão a lhes dar lá atrás, mas foi afastada pelo olhar frio e penetrante que lhe lançaram. Afastou-se e aninhou-se num canto.

Lá, pregados numa parede, a bater um charro, quatro jovens acompanhavam de longe aquele drama. O motorista da administração ainda tentou vender-lhes um saco de feijão “Espera Cunhado”, mas o mais liambado recusou-se e acrescentou: “os meus filhos não podem comer esse feijão que o governo mandou dar à população. Isso não se faz, cota.” O motorista, envergonhado, foi esconder o saco na casa ao lado onde iam beber depois do trabalho. Vendo aquilo, os quatro jovens aproximaram-se da porta da administração comunal. Três deles bloquearam o guarda, para o mais liambado começar a surrar administradora comunal, uma cabrita fina e alta, usando extensões até ao rabo e saltos de 30 centímetros. Foram chapadas bem dadas. Vocês já sabem como são as palmas de um pedreiro e liambeiro! A primeira galheta, que a derrubou ao chão, apanhou a face esquerda dela, quando tentou levantar para se ajeitar, foi-lhe dada mais uma e depois outras e outras. Ninguém a acudia. O guarda, temendo pelo seu trabalho, tentava refilar e ir salvaguardar  a excelência, mas tinha medo de levar também, mas também fora impedido pela olhada da sua mulher que está aninhada ao canto.  “Essa cangamassa não merece eu apanhar uma benda por ela”, falou o PF em surdina. Por isso, aquietou-se e deixou o serviço ser acabado. Depois da sova, a bicha foi desfeita e os mais vulneráveis conseguiram levar qualquer coisita para enganar o estômago. Os sacos escondidos foram recuperados pelos jovens e distribuídos.

Duas ruas antes da administração, onde se fazia a distribuição da água, a Mana Sara, senhora de meia altura, braços cheio de carnes e mãos cobertas de calos,  estava deitada num rio de lama, pregando um cafrique à representante da comissão dos moradores, que batia várias vezes a mão esquerda ao tataime de lama como forma de rendição e derrota, mas as árbitras, zungueiras e peixeiras, e a adversária ignoravam aquele sinal. Tirada do cafrique, agora apertada nos colarinhos, mandaram-lhe abrir os tanques que os camiões cisternas haviam enchido. “tal como o poder, a água é do povo”, dizia a Srª. Sara. “Já basta a merda da motobomba que meteste aqui e anda a nos chupar toda a água. Andamos a te aturar, isso porque esses cambadas de incompetentes não têm coragem de vir te tirar contra-fé”, acrescentou a Srª. Sara. “Mana Sara, é vergonha na cara que andam com ele, minha mana; é tudo farinha do mesmo saco. Farinha podre.”, respondeu a Avó Rita, a anciã do bairro, e acrescentou: “em 76, este bairro no faltava água, agora no faltam camiões a vender águas. Sabem porquê? Esses carros são deles. Tem lá do administrador, da secretária dele, até do guarda, minhas irmãs. Andam a pensar que não ‘tamos a lhes ver quando andam a vir buscar os dinheiros. Mesmo esses tanques que estão aí na rua das condutas são mbora deles ou fazem sócios com os donos dos quintais. Os 60 porcento vão para os bolsos deles!”

Os tanques foram reabertos e a população levou até a última gota para a decepção da representante da comissão do bairro que planeava mear ao tanques e comercializar o resto da água a 50 kwanzas cada bidão.

About The Author

Jeró Kugiza Miguel

Guelmi Kugiza, natural de Cazenga, Luanda, Licenciado em Ciências da Educação pelo ISCED de Luanda, é Professor cronista e contista, tendo um acervo de textos publicados no extinto Jornal Cultura, na Revista Palavras&Artes, na sua página do Facebook e na Mujimbices com Dya Nguxi e Kugiza.

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