Lembro-me de um dia estar a passear com o meu pai, quando tinha eu apenas seis anos de idade. Nalgum ponto do caminho, ele virou-se para mim e perguntou o que eu queria ser quando fosse grande. Prontamente respondi que queria ser engenheiro. Hoje, porém, sou professor. Muitas das crianças com as quais tenho estado a trabalhar têm a idade que eu tinha quando conversei com o meu pai.

As escolas por onde passava, públicas e privadas, eram povoadas por alunos provenientes de famílias de baixa renda. É verdade que havia sempre excepções, raríssimas, no entanto. Um e outro eram enviados para essas escolas, mais em jeito de castigo do que para a formação.

Eu era entusiasta. Ainda sou. Tenho a ideia de que o professor deve mudar a comunidade onde trabalha, no sentido de elevá-la. De resto, substrato do ciclo formativo. Tenho Levado isso muito a sério.

Tinha nos meus alunos uma plateia, as aulas eram, essencialmente, palestras motivacionais. O mote era “vencer na vida”, no sentido material do termo. Então, eu contava as minhas experiências enquanto alcoólatra que venceu o vício com intervenção divina, sem, no entanto, ter frequentado templos, sendo a cura um negócio entre mim e Deus mediado apenas por Cristo. Contava também que a minha mudança me havia colocado na posição marginal, na acepção positiva da palavra, já que havia nascido num bairro onde o normal era ter e ser fracassado, terminado morto ou por espancamento ou por cirrose, ou ainda de outra forma qualquer menos elegante, como, aliás, aconteceu a muitos amigos meus. No ápice da minha iluminação, falava do meu percurso enquanto cobrador de táxi e pedreiro, sendo que a última das duas actividades ainda colocou pão na minha mesa enquanto estudante universitário, mesmo quando já era professor. A sala era uma espécie de um espaço sagrado, eu era o sacerdote e os alunos eram os crentes, na concepção vigente. O mote era “vencer na vida”.

Deu-se uma quebra no estado das coisas quando fui catarseado da forma mais dura possível. Não há nada mais desesperador para o ilusionista do que perceber que, afinal, o encanto não estava em si, mas na plateia, e que, portanto, aquele se perde quando ela é mudada.

Como salto na carreira, abriu-se-me a oportunidade para trabalhar numa das escolas privadas mais referenciadas da Huíla. Tenho estado a lidar com um grupo de alunos de famílias de classes média e média alta. O mote ainda é “vencer na vida”, mas para esses alunos, as minhas histórias no máximo eram hilariantes, no mínimo chatas e vitimistas. Eles entendiam a superação numa dimensão que não cabia nos acidentes da minha vida. A promessa de virem a ser bem sucedidos e ganharem o mundo não os seduzia. Muitos dos meus alunos já passavam férias na América, na Europa e até mesmo na Ásia desde quando ainda não tinham idade para ir à escola. Enquanto isso, o arauto, já ido na idade, pratica apenas a abstracção, sem nunca ter ultrapassado as fronteiras da mãe pátria. Ou seja, prometia um mundo que era apenas uma miragem para si mesmo.

Dada a experiência impactante, até mesmo no sentido físico da palavra, não me restou outro aprendizado que não fosse o de encarar a desconstrução da expressão “vencer na vida” como o objectivo vigente do sistema educativo. Acredito agora que não cabe aos professores venderem sonhos, caprichosos como andam hoje, mas sim formar homens lúcidos o suficiente para se permitirem eles mesmos sonhar.

O sistema educativo não pode continuar atrelado à promessa vã de realização material. Além de ser uma promessa irrealizável, portanto, desnecessária, é fundada no velho aforismo “cada um por si e Deus para todos”. Aqui, valores como solidariedade, lealdade e afins sucumbem logo à nascença, afinal somos todos, numa colocação simpática, adversários num autêntico Big Brother existencial: só um pode ganhar o prémio milionário à custa de um desgaste emocional, tremendo perda de carácter e uma colecção invejável de inimigos.