Paciência é o porto das misérias, diz um dos milhares de adágios sobre a PACIÊNCIA. Eu teria dito melhor: Paciência é um porto para decepções. Afinal  não é de hoje que facilmente a espera pelo início de um evento em Luanda, leva-nos a atracar em portos de extensivas decepções, revelando claramente a nossa imensa miséria no quesito RESPEITO.

A espera para o início dos eventos na banda, representa um verdadeiro teste a paciência de quem pretende descontrair, expurgar as malambas da alma e quiçá, com isso, revitalizar as energias para aguentar a carga que oferecem as labutas diárias ou, quanto mais não fossem, as kungas rotineiras de quem ainda consegue sobreviver por essas paradas de exposição de arte e cultura em crescimento.

Na avidez de dar a receber aos meus olhos o melhor da arte e da cultura que a banda tem ou que recebe de outras paragens, ginastico-me para ter que fazer-me presente em algum evento e agraciar o meu âmago, ainda que o mesmo seja na Ilha de Luanda e eu tenha que sair da Centralidade do Sequele. A sexta-feira, normalmente, recebe-me de braços abertos para a diversão e eu devolvo as suas boas intenções aproveitando para sair, entreter-me, descongestionar. O triste é quando sai-me o tiro pela culatra e o que devia servir para descontracção acaba transformado em decepção, como foi o caso dessa última sexta-feira, 08 de Dezembro de 2017, com o festival Jazz no Kubico Fusion.

Havia abandonado outros convívios, na ânsia de sentir um certo “Tic-Tac” que me levaria à lembranças sobre “Aquela Rua” e talvez a matar as saudades de uma certa “Nanda” que conheci outrora. O que se seguiria, de outras paragens, viria a ser a cereja no topo do bolo, o improviso por cima do instrumental, ou, dizendo  melhor, o solo da guitarra ou do batuque no instante em que a voz do artista emudece e as mãos dos instrumentistas fazem a magia acontecer.

O evento estava marcado para as 17h00. Quando o sol ainda brincava no céu limpo e, muito antes da hora marcada, já eu dava o ar da minha presença no Clube Naval de Luanda. Ainda vi os artista a ensaiarem os seus instrumentos e deu até para roubar uma Selfie a dois deles que garantiram-me que se apresentariam em poucos instantes. A Paciência abranda a dor, diz outro adágio sobre a Paciência, por isso naquele momento, senti-me revigorado, por ter aguardado, pacientemente, a semana toda por esse evento. Sabia que aguardaria mais, não imaginava quanto.

O sol morreu algures atrás de nós sem ver o espectáculo a acontecer. Provavelmente esgotou-lhe a paciência e decidiu encafuar-se no mar. Aconchegado num banco de cartão, perdi-me entre discussões e gargalhadas que trocava com um compincha, sobre assuntos que, visivelmente, eram disfarces para comer o tempo. Quando dei por mim, o relógio marcava 18h49min. e ainda haviam adereços a serem montados no palco. Talvez  algumas placas com as marcas e dizeres do patrocinador do evento tinham estado presas no engarrafamento de navios e, por isso, apenas deram a costa depois do pôr-do-sol.

Sem qualquer informação, sem qualquer esclarecimento, apenas com mais um adágio sobre a paciência remoendo-me as entranhas, “A Paciência é amarga, mas o seu fruto é doce”, o tempo de espera estendeu-se até completar três horas. Eram precisamente 20h11min. quando, alguém, que por sinal teria a missão de conduzir o evento fez-se ao palco. Sem sequer apresentar-se, o anfitrião domado por alguma emoção indescritível, efeito de sabe-se lá o quê, com um volume de papéis em mãos, pôs-se a ler o pedido de desculpas, sem qualquer brio, sem qualquer respeito por quem aguardava o início do evento há mais de três horas. E entre gritos descabidos, anunciou que o evento viria a começar em aproximadamente quinze minutos.

Um dos grandes motivos que leva-me a chegar cedo aos eventos é a esperança de que os organizadores lembrem-se que nem todos são noctívagos, nem todos têm um carro próprio e nem todos têm a sua residência nos arredores do local do evento. Eu que tenho, ou devo ter sempre, as actividades bem temporizadas devido à compromissos infalíveis e inalteráveis,  após quatro horas encafuado no Clube Naval, a única coisa que rondava a minha cabeça era como seria o meu regresso até à Centralidade do Sequele, pois, havia feito às contas e, na esperança de que o atraso fosse de um hora, como já nos habituaram na banda, o evento teria o início às 18h00, pelo que até as 20h30 já teria assistido à apresentação de pelo menos três ou quatro artistas e retomaria a casa meio satisfeito. Engano meu!

Passado um pouco mais do quarto de hora prometido para o início do evento, eis que, novamente, tomou o Palco o anfitrião que entre leituras descontroladas, expressões  mal empregues e palavras mal pronunciadas, soltou uma série de gritos que em nada ajudaram a enriquecer o evento, para mim, morto pelo tempo de espera: Três horas e trinta minutos, tempo suficiente para usar, dentre todos os adágios sobre a paciência, o mais conhecido: “PACIÊNCIA TEM LIMITE!”.

Abandonei o espaço, sem ver subir ao palco qualquer um dos artistas anunciados em cartaz, em vários órgãos de comunicação. Saí furibundo, levando apenas, uma vez mais, a raiva pela tamanha desorganização dos nossos organizadores de eventos que certamente fazem isso apenas porque sentem-se no direito de abusar da passividade do público.