Uma escuridão bonita é o título de um dos livros de Ondjaki, escritor angolano cuja escrita faz viajar e desperta o gosto e a curiosidade pela leitura. O livro, de poucas páginas, conta a estória de um beijo, isso mesmo, um beijo. É uma escrita marcada por encantamento e uma forma bonita de olhar o mundo: pelos olhos da infância. Entretanto, essa estória de como dois adolescentes se dão um beijo, no meio de uma escuridão bonita, melódica, doce, com um silêncio bom de se apreciar e “ouvir” e que falava por si só, deitados em uma varanda a olhar as estrelas, passa também pela reflexão (subtil) sobre a guerra e as consequências que esta traz para milhares de crianças que se encontram um pouco pelos vários cantos do mundo.

Eles, naquele momento, de toques ligeiros nas mãos um do outro, de respiração ofegante própria de quem está apaixonado, de sorrisos, de olhares furtivos, de meias palavras com grandes significados, a olhar para o céu azul-escuro e repleto de brilho, num diálogo aparentemente simples e despropositado (mas profundo) pedem um desejo de estrelas. E esse desejo de estrelas era que ‘o saco das guerras se perdesse e que milhares de crianças afectadas pelas guerras não sofressem mais’. É no meio da estória de um beijo, carregada de pureza e encanto, que somos levados a reflectir no mal que as guerras causam, no mal que a ganância e a luta pelo poder que tem marcado a história da humanidade causam a todos, mas principalmente às crianças, inocentes. A estas retira-se, desde cedo com as guerras, o direito a uma vida tranquila, retira-se muitas vezes a presença dos pais e o direito a crescer ao lado deles, retira-se a oportunidade de sonhar com um mundo justo e igual para todos.

 

São inúmeros os casos de intolerância política, social e religiosa que têm desencadeado guerras um pouco pelo mundo todo. Os homens, pelo que a história nos mostra, na sua incapacidade e falta de luz para resolver seus problemas, têm recorrido ao saco das guerras vezes sem conta. E o processo é: se o “Outro” não se submete, então vai-se logo a correr ao saco das guerras, se o outro não segue as minhas regras e leis e não se sujeita ao domínio, então vai-se logo a correr ao saco das guerras, se o outro não crê no mesmo que eu e na “superioridade” da minha religião ou fé, então a solução é ir ao saco das guerras, e já se resolve tudo.

Tal como no livro, gostava que esse saco se perdesse algures, onde os homens não pudessem mais o encontrar e parassem de fazer mal a si próprios. Que se ouvisse o grito das milhares de crianças que sofrem pelas consequências das guerras e se perdesse esse saco. Ainda acredito, tal como no livro, que pode caber muitas coisas no coração das pessoas. Além de “um desejo de estrelas, de um poema, de uma recordação, um cheiro de infância”, pode também caber mais amor, mais paz, mais harmonia, mais respeito pelos outros e suas escolhas, pode caber o desejo de um mundo de igualdade e fraternidade para todos.

Talvez se aprendêssemos a olhar o mundo com os olhos de uma criança, o saco das guerras perder-se-ia… talvez se aprendêssemos a apreciar o sorriso de uma criança, não só em Junho, e lutássemos para manter aquele sorriso, o saco das guerras perder-se-ia. Talvez se se pensasse que a terra dá o suficiente para todos, como disse Ghandi, e a ganância fosse deixada de parte, o saco das guerras perder-se-ia.Uma escuridão bonita é o título de um dos livros de Ondjaki, escritor angolano cuja escrita faz viajar e desperta o gosto e a curiosidade pela leitura. O livro, de poucas páginas, conta a estória de um beijo, isso mesmo, um beijo. É uma escrita marcada por encantamento e uma forma bonita de olhar o mundo: pelos olhos da infância. Entretanto, essa estória de como dois adolescentes se dão um beijo, no meio de uma escuridão bonita, melódica, doce, com um silêncio bom de se apreciar e “ouvir” e que falava por si só, deitados em uma varanda a olhar as estrelas, passa também pela reflexão (subtil) sobre a guerra e as consequências que esta traz para milhares de crianças que se encontram um pouco pelos vários cantos do mundo.