Fica até feio dizer isso, vindo de um sujeito que ganha a vida juntando artes. Mas uma boa forma de começar a ler esta estória, é apreciar os retractos expostos.

Álvaro Macieira, numa exposição, perguntou a um homem:

«Quer ver meus quadros?!»

O homem praticamente respondeu-lhe com o olhar, antes de dizer:

«Não vês que já estou a apreciá-los?!»

O pintor afastou-se, meio receoso.

O homem misterioso procurava criar uma melodia que coadunasse com o quadro que ele tanto observava. Era alguém com conhecimentos bem apurados sobre cultura geral, principalmente a nacional, e um sorriso meio tímido, que foi surpreendido pela imagem. No retracto havia, de um lado, uma marimba e duas mulheres a comerem funge com catato. As senhoras tinham as mãos suadas e lambiam os beiços. Do outro lado do quadro, por cima, edifícios com carros e pessoas a pisotearem os pratos e a comerem lasanha. A forma como as mulheres comiam, a apontarem para o prato, chamou a atenção do homem.  Para terminar, homens a dançar e ao mesmo tempo que recebiam dinheiro.

Cruzei, brevemente, o meu olhar com o do homem e logo percebi que, dentre os quadros expostos, esse era o menos apreciado, as pessoas não se davam ao trabalho de decifrá-lo. Bem, se eu tivesse o poder de apreciar quadros, sendo que não aprecio nada, talvez estaríamos no mesmo frenesim. Mas eu também não percebia nada! Ele, sempre calado, continuava apenas a observar as imagens.

«Vou descer num instante» disse ele com a voz rouca. Infelizmente ele deixou uma má impressão ao Álvaro em relação ao seu comportamento, à princípio. Foi tomar um café e enquanto dava os goles, ia fazendo anotações em relação àquilo que viu. Quando voltou a subir, acenou para o Álvaro Macieira, queria conversar com ele. Álvaro hesitou, mas por ser o anfitrião teve de ir ao encontro dele. E o homem perguntou-lhe:

«Qual foi a sua intenção artística quando pintou esta imagem? Que mensagem queria passar às pessoas?! Uma conversa assim: “Ainda uma hesitação minha, mas breve”. Desculpe, mas  agora quem lhe vai responder sou eu.”

Muito sinceramente também não percebi nada! Ele questionou Álvaro Macieira e ele mesmo respondeu.

«É uma tremenda fantochada tentarmos mostrar que amámos a nossa cultura e depois, num outro fórum, desdenharmos a mesma. Porque dá uma sensação desagradável ver pessoas a comer o funge com as mãos?! Ver a marimba somente nas inaugurações de empresas e outras mais, mas nunca nas festas de quintal?! Ver que está na moda o uso de trajes africanos nos pedidos de casamento, mas não é uma questão cultural? O abandalho ao alembamento reflectiu nos exageros. No final, também vi uma das culturas do Benim, retratada lá no quadro, que quando tu entras para dançar, é-te dado um dinheiro para alegrar as tuas passadas. Esses, sim, preservam a sua cultura. Posso deixar o resto para si, mas esta é a minha visão em relação ao quadro, porque as outras coisas estavam ocultas.

»Fico por aqui. Obrigado pela oportunidade que me deu de me ouvir!»

Nem valeu a pena argumentar, Álvaro ficou com a sua resposta encravada à garganta sem poder ter dito se o homem estava certo, ou não, em relação à leitura que fez ao quadro.