O continente africano vive um momento cultural bastante interessante.
Entender este fenómeno obriga-nos a fazer uma imersão na história.

Consta-se que África é o continente com maior grau de diversidade étnica.
Segundo os dados da conceituada revista científica Cience Express, existe mais diversidade em África do que em todo resto do mundo. Estes dados são resultados de uma pesquisa sobre a genética humana que durou dez anos, tendo envolvido vários países, dentre eles, os Estados Unidos, a França, a Tanzânia e o Mali.

Cada etnia tem a sua própria identidade, mundividência e, consequentemente, uma expressão cultural única, apesar de haver muita fonte de convergência e ponto de diálogo entre elas. Todavia, essa diversidade foi diluída pelo processo de colonização que homogeneizou o continente tendo como matriz a cultura dos países colonizadores. Assim, podemos dizer que a diversidade africana está por baixo do tapete da cultura inglesa, francesa, portuguesa, bem como russa e norte-americana, sendo estas duas últimas resultantes da influência política que a Guerra Fria teve sobre o mundo.

Com advento do fim da colonização, África viveu um momento de afirmação identitária das suas nações, muitas delas formadas a partir da demarcação territorial da própria colonização. Viveu-se, portanto, um momento de solidificação de valores como o sentimento de unidade nacional, nacionalismo, etc.

O afrofuturismo surge como uma proposta estética na direcção de uma expressão cultural inspirada em valores africanos.

Nesta altura, a cultura assentava-se sob a vanguarda revolucionária envolvida na luta de libertação. Portanto, era ainda uma cultura justificadamente reactiva ao sistema colonial. Agregando isso ao contexto sociológico de constantes guerras civis, o continente viveu uma inércia cultural. No entanto, muita coisa foi feita nos 30 anos posteriores às independências.

Mas África não é só uma demarcação geografia. O sentimento de pertença sobreviveu ao tempo e ao espaço e se consolidou em todos os lugares do mundo, principalmente naqueles que registaram forte herança da escravidão. A esses espaços deu-se o nome de diásporas africanas. 

Hoje muitos fenómenos convergem para um renascimento dos valores africanos adaptados à modernidade. A solidificação de alguns países africanos no que diz respeito à integridade dos seus estados e a potencialização da consciência histórica e identitária na diáspora africana são os mais sonantes.

É neste contexto que surge o Afrofuturismo como mais uma proposta estética na direcção de uma expressão cultural inspirada em valores africanos.

O Afrofuturismo é uma miscelânea de filosofia da arte e filosofia da história centrada na perspectiva africana. Explorando a expressão da cosmologia, da fantasia, tradição oral ou escrita, lendas e mitos originários do continente.

Não se limitando somente à cultura enquanto expressão artística, o Afrofuturismo também se estendeu para o campo das ciências naturais e da filosofia. Entre os precursores desse género estão:

Literatura: Samuel Delany, Octavia Butler e Ralph Ellison. Artes plásticas:  Jean-Michel Basquiat e Angelbert Metoyer. Música: Sun Ra e George Clinton.

O legado do Afrofuturismo é extenso e ainda há muita água por escorrer, pois é uma visão estética bastante recente. Mas já se pode destacar a influência que teve sobre a improvisação no universo jazzístico, a partir da obra Sun Ra, a influência em literatura dessa estética em obras como a saga de quadrinhos, “O Pantera Negra”, adaptada ao cinema recentemente.

É possível identificar elementos afrofuturistas em obras de artistas como Afrikaaa Bambataa, Erykah Badu, Missy Elliott, Janelle Monáe, Ellen Oléria, Keita Mayanda, Ndaka Yo Wiñi, Kiluanji Kia Henda, Nástio Mesquita, Ibrahim Mahama, etc.